Las Vegas enfrenta queda no turismo em meio a políticas migratórias e novo modelo de negócios
A cidade de Las Vegas, historicamente reconhecida como a capital mundial do entretenimento e do jogo, atravessa um momento de transição que reflete tanto mudanças políticas quanto transformações no próprio modelo de negócios local. A análise foi feita por André Dubronski, editor-chefe do iGamingFuture, com colaboração da correspondente norte-americana Lauren Harrison.
O impacto do chamado “Trump Slump”
Desde a reeleição de Donald Trump, as rígidas políticas migratórias e controles de fronteira intensificados pela ICE vêm afetando diretamente o turismo. Conhecido como “Trump Slump”, esse movimento afasta turistas de classe média, tanto de colarinho azul quanto branco, que tradicionalmente compunham grande parte dos visitantes da cidade. De acordo com a Autoridade de Convenções e Visitantes de Las Vegas (LVCVA), o volume de visitantes caiu 7,3% no primeiro semestre de 2025 em relação ao mesmo período de 2024.
Além da queda na chegada de turistas, principalmente de mercados-chave como Canadá e México, a cidade enfrenta retração em métricas essenciais. A taxa de ocupação hoteleira caiu 2,1%, enquanto a diária média recuou 5,5%, ficando em US$ 185,24. O Revenue Per Available Room (RevPAR) também caiu 7,8%, e o tráfego aéreo registrou queda de 4,1%.
MGM Resorts e a visão de Bill Hornbuckle
Apesar das estatísticas negativas, Bill Hornbuckle, CEO da MGM Resorts International, mantém um discurso otimista. A empresa, que opera mais de dez resorts na famosa Strip, apresentou receita líquida recorde de US$ 4,4 bilhões no segundo trimestre. “Vegas não está morta”, afirmou Hornbuckle em fórum de investimentos do Bank of America em Nova York. Para ele, a diversificação dos negócios é a chave para atravessar o momento de instabilidade.
As ações da MGM valorizaram cerca de 15% desde a posse presidencial, refletindo a confiança dos investidores na capacidade da companhia em adaptar-se ao novo cenário. O executivo reconhece, no entanto, que o verão foi “muito difícil” e que será necessário consolidar novas frentes de receita para sustentar o futuro da cidade.
Um novo modelo de negócios: menos pessoas, mais dinheiro
Enquanto o fluxo de turistas diminui, os números de receita de jogo surpreendem positivamente. Em julho, a GGR (Gross Gaming Revenue) de Nevada alcançou US$ 1,35 bilhão, aumento de 4% em relação ao ano anterior. Só na Strip, o crescimento foi de 5,6%, totalizando US$ 749 milhões. Isso reforça o que especialistas chamam de modelo de “menos pessoas, mais dinheiro”.
No entanto, como destaca o jornalista Corey Levitan, cerca de 75% da receita atual de Las Vegas já não vem do jogo, mas de atividades paralelas como hospedagem, gastronomia, entretenimento e serviços adicionais. Essa mudança estrutural coloca em perspectiva a dependência crescente da cidade em receitas não relacionadas ao jogo.
O efeito do “níquel e escurecimento”
O que também chama atenção é a estratégia de cobrança extra em serviços que antes passavam despercebidos. Resorts da MGM, por exemplo, chegam a cobrar US$ 25 por talheres e guardanapos, enquanto o Flamingo aplica taxa de check-in de US$ 60. Há casos emblemáticos como uma garrafa de água de Fiji custando US$ 26 em minibar do Aria. Esse modelo de “níquel e escurecimento” vem gerando insatisfação em parte dos visitantes e se tornou um símbolo do novo normal de Las Vegas.
Consequências sociais e econômicas
A situação não impacta apenas as estatísticas turísticas, mas também os trabalhadores locais. Segundo Ted Pappageorge, secretário-tesoureiro do sindicato dos trabalhadores culinários, a queda de visitantes reduziu as gorjetas em até 50% para alguns funcionários. Com mais de 60 mil membros, o sindicato alerta para o risco de demissões significativas caso não haja uma correção de rumo nas políticas migratórias e econômicas.
“Se você diz ao mundo que ele não é bem-vindo, ele simplesmente não vem”, resume Pappageorge, destacando o efeito direto da incerteza sobre a renda das famílias que dependem do turismo.
Vegas segue como termômetro da economia
Ao longo da história, Las Vegas sempre foi vista como um reflexo da economia dos EUA. Apesar dos desafios atuais, líderes locais como Steve Hill, CEO da LVCVA, seguem confiantes no futuro. “Las Vegas ainda é a capital mundial do entretenimento”, afirmou. A aposta agora é em diversificação e em um novo equilíbrio entre turismo, entretenimento e negócios para sustentar a cidade no longo prazo.
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Fonte: iGamingFuture

