Exagero no mercado ilegal pode gerar restrições
Desde a regulamentação oficial das apostas online no Brasil, em janeiro deste ano, o debate sobre o impacto do mercado ilegal ganhou força. No entanto, para Ed Birkin, diretor-geral da H2 Gambling Capital, exagerar os números referentes às operações não licenciadas pode ser prejudicial e resultar em consequências indesejadas para os operadores que atuam dentro da legalidade.
O risco de inflar os números
Estimativas divulgadas recentemente sugerem que até 80% das apostas no Brasil estariam sendo realizadas em plataformas ilegais. Esse número foi mencionado por Tiago Barbosa, head de integridade da Genius Sports para a América Latina, em audiência com representantes do governo.
Contudo, de acordo com a H2 Gambling Capital, o mercado ilegal brasileiro é bem menor do que se vem divulgando. Para Birkin, ele representa aproximadamente 30% do total, e não 70% ou 80% como alguns apontam.
Segundo ele, esse discurso exagerado pode levar os legisladores a interpretar o setor como excessivamente nocivo, incentivando a adoção de novas restrições sobre o mercado regulamentado.
Desempenho dos operadores e a narrativa
Birkin acredita que muitos operadores estão usando o argumento do mercado ilegal para mascarar falhas internas. Para ele, a dificuldade de competir no setor regulamentado tem levado empresas a reforçarem a narrativa de que as plataformas ilegais dominam o cenário, quando, na prática, isso não corresponde à realidade.
“A narrativa é conveniente para justificar resultados abaixo do esperado. Em vez de assumir suas dificuldades, apontam o mercado ilegal como culpado”, destacou em entrevista à iGB.
Números do mercado brasileiro
Apesar das restrições iniciais ligadas ao processo de KYC (Conheça Seu Cliente), o setor mostrou evolução significativa em poucos meses. Em janeiro, o faturamento foi de cerca de R$ 2,2 bilhões, mas em abril o montante praticamente dobrou, atingindo R$ 4 bilhões.
Ainda assim, parte da indústria insiste em dizer que o mercado ilegal corresponde a até 70% do total. Para Birkin, esse cálculo não faz sentido, pois implicaria em um setor avaliado em mais de US$ 20 bilhões, algo irreal para o momento.
Risco de novas restrições no Brasil
Menos de um ano após a regulamentação, já existem propostas que podem apertar ainda mais o cerco às apostas no Brasil. Entre elas, está o aumento do imposto sobre a receita bruta do jogo (GGR) de 12% para 18%, que aguarda deliberação no Congresso.
Além disso, novas limitações à publicidade estão sendo consideradas. O governo brasileiro, segundo Birkin, enxerga o jogo como um problema social, independentemente da divisão entre legal e ilegal. Esse posicionamento aumenta a chance de mais barreiras regulatórias no futuro.
Comparação com o mercado holandês
Birkin comparou a situação atual do Brasil com a da Holanda. Após a legalização do mercado online em 2021, a intensa publicidade gerou crescimento rápido, mas também preocupações sociais. Como resposta, o governo holandês impôs regras rígidas, incluindo limites de depósitos e aumento de impostos. Hoje, cerca de 50% do mercado segue nas mãos de operadores não licenciados.
Para ele, o Brasil corre o mesmo risco caso não haja um equilíbrio entre crescimento, transparência e responsabilidade.
Responsabilidade dos operadores
De acordo com Birkin, os operadores licenciados precisam assumir parte da responsabilidade caso novas medidas sejam implementadas. Isso porque a concentração do mercado em poucas marcas cria um ambiente desigual, no qual diversas empresas menores não conseguem conquistar espaço.
“O problema não está apenas no mercado ilegal, mas também na performance de alguns operadores que não atingem as expectativas. Se a indústria insistir em inflar os números do mercado não licenciado, o resultado será apenas mais restrições”, concluiu.
O alerta de Birkin reforça que a narrativa sobre o mercado ilegal deve ser tratada com cautela, evitando distorções que possam colocar em risco o futuro das apostas esportivas regulamentadas no país.
Fonte: iGB – Brasil – igamingbusiness.com | Autor: Kyle Goldsmith

