Fantasy games se consolidam no Brasil com foco em regulação e crescimento sustentável
O segmento de fantasy games vem conquistando espaço no cenário brasileiro de entretenimento digital, ainda que seu tamanho seja consideravelmente menor que o das apostas esportivas e dos jogos online tradicionais. A avaliação foi feita em entrevista à G&M News por especialistas do setor, que apontam diferenças claras entre os dois formatos e defendem uma regulamentação específica e adequada à natureza dos fantasy games.
Fantasy games x apostas esportivas: entenda as diferenças
Apesar de ambos integrarem o universo de jogos baseados em esportes reais, as diferenças entre fantasy games e apostas esportivas são estruturais e jurídicas. Enquanto nas apostas o participante prevê o resultado de um evento futuro com base em probabilidades (odds), competindo contra a operadora, nos fantasy games o resultado depende diretamente da habilidade do jogador em montar e gerenciar uma equipe virtual de atletas reais.
Nos jogos de fantasia, os usuários competem entre si, e as premiações são determinadas de forma comparativa, por meio de ranking ou pontuação, conforme o desempenho real dos atletas escalados. O fator sorte tem peso reduzido, e a competição é mais voltada à estratégia e ao conhecimento esportivo.
Já nas apostas esportivas de quota fixa, prevalece o elemento aleatório, pois o apostador tenta prever o desfecho de um evento específico, como o placar de uma partida. Essa distinção é reconhecida legalmente pelo artigo 49 da Lei nº 14.790/2023, que define que o “jogo de fantasia (fantasy sport)” não é considerado aposta de quota fixa, desde que o resultado não dependa exclusivamente de um evento real e derive da habilidade dos participantes.
Semelhanças e pontos de convergência
Apesar das diferenças, há pontos de contato entre ambos os segmentos. Tanto os fantasy games quanto as apostas esportivas fazem parte do ecossistema de iGaming e utilizam dados estatísticos oficiais de competições esportivas. Ambos também envolvem monetização por meio de taxas de inscrição e prêmios, além de compartilharem preocupações com integridade esportiva e proteção ao consumidor.
Regulação e tributação: desafios e inconsistências
Atualmente, o marco regulatório brasileiro diferencia apostas esportivas e fantasy games em termos de competência ministerial. As apostas e demais jogos online estão sob a responsabilidade do Ministério da Fazenda, que atua na fiscalização econômica e tributária do setor. Já os fantasy games são reconhecidos como uma forma de esporte eletrônico (esport) e ficam sob a alçada do Ministério do Esporte, devido ao seu caráter competitivo e à predominância de habilidade sobre sorte.
Essa separação, no entanto, ainda não é plenamente refletida na tributação. Segundo especialistas, há inconsistências na aplicação do Imposto Seletivo (IS), previsto para atividades que geram externalidades negativas, como impacto ambiental ou riscos à saúde pública. Os fantasy games, por dependerem de habilidade e apresentarem baixa frequência de uso, não se enquadram nesse perfil e, portanto, não deveriam estar sujeitos ao IS.
“O fantasy game é uma atividade digital baseada em estratégia e conhecimento, sem impacto ambiental e com baixo potencial de vício. Logo, deve seguir um regime tributário mais adequado às competições eletrônicas, e não o modelo dos jogos de azar”, reforça o entrevistado.
Projeções de crescimento: mercado bilionário até 2030
De acordo com levantamento da consultoria Grand View Research, o mercado brasileiro de fantasy games movimentou cerca de US$ 748 milhões em 2024 e deve atingir aproximadamente US$ 2 bilhões até 2030. Isso representa um crescimento médio anual de 18%, impulsionado pela popularidade do futebol, pela ampla adoção de dispositivos móveis e pela evolução da regulação digital.
Outras projeções internacionais apresentam taxas mais conservadoras, entre 10% e 15% ao ano, mas todas destacam o Brasil como um dos países com maior potencial de expansão nesse setor. Apesar do crescimento expressivo, o mercado de fantasy games ainda é significativamente menor que o de apostas esportivas, tanto em volume financeiro quanto em número de usuários ativos, refletindo sua natureza menos recorrente e mais voltada ao entretenimento estratégico.
Comparativo entre os segmentos
| Critério | Fantasy Games | Apostas Esportivas |
|---|---|---|
| Base de resultado | Habilidade e estratégia | Sorte e previsões de eventos |
| Interação | Entre usuários (competição) | Contra a casa de apostas |
| Frequência de uso | Baixa e eventual | Alta e contínua |
| Regulação | Ministério do Esporte | Ministério da Fazenda |
| Risco à saúde pública | Muito baixo | Moderado a alto |
ABFS mira expansão e parcerias internacionais até 2026
A Associação de Bets e Fantasy Sport (ABFS) trabalha para fortalecer o ecossistema de fantasy games no Brasil e consolidar o país como referência na América Latina. Entre as metas para 2026, estão iniciativas voltadas à integridade esportiva, cooperação institucional e expansão internacional.
- Parceria com o Ministério do Esporte: o convênio firmado prevê ações conjuntas para aprimorar a integridade esportiva, monitorar práticas indevidas e apoiar boas práticas regulatórias.
- Parcerias internacionais: acordos de cooperação com associações de fantasy sports dos Estados Unidos e da Índia visam compartilhar modelos de regulação e mecanismos de prevenção a manipulações esportivas.
- Articulação institucional: a ABFS planeja ampliar o diálogo com o Ministério da Fazenda, o CADE, a Secretaria Nacional do Consumidor e a Comissão de Esportes da Câmara dos Deputados para criar um ambiente competitivo saudável e seguro.
Essas ações refletem o compromisso da associação em garantir segurança jurídica e promover políticas públicas diferenciadas para jogos de habilidade, reconhecendo o papel do fantasy game como uma categoria legítima dentro do mercado digital esportivo.
O futuro dos fantasy games no Brasil
Com o avanço da regulação e o fortalecimento institucional promovido pela ABFS, o cenário de fantasy games no Brasil tende a se expandir rapidamente. A combinação entre tecnologia, paixão esportiva e ambiente regulatório claro deve impulsionar o setor rumo a um novo patamar de profissionalização e reconhecimento.
Se bem conduzida, essa evolução permitirá que o país se destaque globalmente no universo de esportes eletrônicos baseados em habilidade, conciliando inovação, responsabilidade social e sustentabilidade econômica.
Fonte: Gaming And Media – g-mnews.com

