Patrocínio de apostas perde força no futebol brasileiro após boom
O mercado de patrocínio de apostas esportivas no futebol brasileiro vive um momento de ajuste após um período de crescimento acelerado. Depois do entusiasmo inicial gerado pela legalização das apostas online e pela chegada massiva de operadores nacionais e internacionais, os acordos com clubes começaram a perder força e visibilidade.
Conforme análise publicada pelo editor da iGamingFuture LatAm, Jordi Bacardi, o cenário atual reflete o clássico efeito do “dia seguinte à grande festa”. A euforia que tomou conta do mercado no início da regulamentação, no ano passado, deu lugar a uma realidade mais pragmática, marcada por custos elevados, maior risco regulatório e margens mais apertadas.
Queda expressiva nos patrocínios da Série A
Com a legalização das apostas online no Brasil, operadores onshore e offshore se multiplicaram rapidamente antes mesmo da regulamentação plena entrar em vigor. Como resultado, quase todos os clubes da Série A exibiam logotipos de casas de apostas em suas camisas durante a temporada anterior.
No entanto, o cenário mudou de forma significativa na temporada 2025-2026. Dos 20 clubes da elite do futebol brasileiro, apenas 12 iniciaram o campeonato com patrocinadores principais do setor de apostas, contra 18 no ano anterior. A redução de cerca de 33% acendeu um alerta no mercado.
Entre as ausências mais notáveis está o Santos, um dos clubes mais tradicionais do país, fundado em 1912 e eternizado por Pelé. O clube paulista segue em negociações para substituir a 7k, sua antiga patrocinadora principal. Situação semelhante é observada em equipes de grande expressão como Grêmio, Internacional, Vasco e Bahia.
Correção natural após período de euforia
Especialistas apontam que a retração não representa o fim do envolvimento das apostas com o futebol, mas sim uma correção natural de mercado. André Gelfi, gerente geral da Betsson Brasil, avalia que o entusiasmo excessivo do início da regulamentação levou a uma fase de saturação e gastos agressivos.
Segundo ele, fatores como o aumento da carga tributária, o risco de novos impostos, exigências regulatórias mais rigorosas e margens de lucro mais estreitas provocaram um ponto de inflexão. “Os preços estavam inflacionados pela iminência da regulamentação e pela entrada de muitos novos players. Isso não é mais o caso”, afirmou Gelfi ao iGamingFuture.
De acordo com o executivo, o mercado passa agora por um ajuste de preços compatível com a nova realidade econômica. “É uma correção natural, considerando que o risco aumentou e a economia está mais pressionada. As discussões estão em outro nível”, completou.
Impacto maior sobre operadores médios e pequenos
Amilton Noble, CEO da Hebara SA, reforça a visão de que o mercado brasileiro de apostas ainda está inflado, especialmente no segmento de patrocínios esportivos. Ele destaca que, com exceção do Vasco — que tinha a Betfair —, a maioria dos clubes que perdeu patrocinadores era apoiada por operadoras brasileiras de médio porte.
Segundo Noble, muitos valores foram definidos em um período anterior à regulamentação, quando as empresas não recolhiam impostos no Brasil. “O nível de impostos agora é muito maior, e houve aumento adicional no início de janeiro. Muitos contratos se tornaram inviáveis”, explicou.
O executivo também alerta que diversas empresas acreditaram que o simples patrocínio de clubes seria suficiente para impulsionar suas marcas, sem considerar os elevados custos envolvidos. “Isso não cobre os gastos. Além disso, o mercado ilegal continua forte e reduz as receitas dos operadores regulamentados”, acrescentou.
Regulamentação mais rígida muda estratégias
No início da abertura do mercado, muitas casas de apostas investiram pesadamente para ganhar visibilidade e participação, pagando cifras elevadas por direitos de patrocínio. Agora, com custos de aquisição de clientes mais altos e margens mais apertadas, a prioridade passou a ser a sustentabilidade financeira.
O fortalecimento da regulamentação das apostas no Brasil também tem impacto direto nesse cenário. Restrições sobre publicidade, limites de exposição em eventos esportivos e debates políticos sobre possíveis proibições em espaços públicos aumentam a incerteza e reduzem o valor percebido desses acordos.
Esse ambiente mais rigoroso leva operadores e clubes a adotarem posturas mais cautelosas, priorizando contratos realistas e alinhados ao retorno esperado sobre o investimento.
Questões contratuais e casos emblemáticos
Além dos fatores econômicos e regulatórios, problemas contratuais também contribuíram para o enfraquecimento do patrocínio de apostas. Um dos exemplos mais comentados foi o acordo entre Pixbet e Flamengo, que enfrentou dificuldades financeiras e acabou sendo encerrado antes do previsto.
Esses episódios serviram de alerta para o mercado, evidenciando os riscos de associações mal estruturadas. Também surgiram debates sobre possíveis conflitos de interesse entre clubes e plataformas de apostas, o que ampliou o escrutínio sobre esse tipo de parceria.
Com o estouro da chamada “bolha” dos patrocínios, muitos clubes passaram a renegociar valores, buscar patrocinadores de outros setores ou diversificar seus espaços publicitários.
Nem todos perderam espaço no mercado
Apesar do recuo geral, alguns clubes conseguiram atravessar o período de ajuste com acordos relevantes. O Botafogo, atual campeão da Copa Libertadores, fechou um patrocínio estimado em cerca de R$ 55 milhões por ano com a VBet, controladora da Parimatch.
O Flamengo, por sua vez, mantém um dos contratos mais expressivos do país com a Betano, mostrando que marcas consolidadas e clubes de grande alcance ainda conseguem atrair investimentos robustos do setor.
No entanto, a incerteza jurídica e regulatória faz com que muitos outros clubes adotem uma postura mais conservadora, avaliando cuidadosamente os riscos antes de firmar novos contratos com operadoras de apostas.
Um mercado mais maduro e seletivo
O momento atual indica uma transição para um mercado mais maduro, onde a euforia inicial dá lugar a decisões baseadas em dados, rentabilidade e sustentabilidade. O patrocínio de apostas no futebol brasileiro não desapareceu, mas deixou de ser automático.
Para clubes e operadores, o desafio agora é encontrar modelos de parceria que façam sentido no longo prazo, equilibrando visibilidade, conformidade regulatória e retorno financeiro em um dos mercados de iGaming mais promissores do mundo.
Fonte: iGaming Future – Autor: Jordi Bacardi

