Hoje, é quase impossível assistir televisão ou navegar na internet sem se deparar com ao menos uma peça publicitária de uma casa de apostas. No entanto, um setor se tornou a ‘menina dos olhos’ dos operadores: o futebol. Atualmente, 18 dos 20 clubes da Série A contam com uma casa de apostas como patrocinadora máster.
Mirassol e Bragantino, as duas únicas equipes sem uma operadora como principal parceiro, também estampam o logo de uma casa de apostas em outra propriedade do uniforme.
O cenário se repete na Série B. Atualmente, 70% dos clubes da segunda divisão possuem uma casa de apostas como patrocinadora máster. Apenas Avaí, Amazonas, Chapecoense, Cuiabá, Operário-PR e Remo não contam com acordos firmados com empresas do setor.
Para entender melhor esse novo cenário, o SBC Summit Rio organizou o painel Na Linha de Frente: o papel fundamental dos clubes esportivos na nova era, que contou com a presença de especialistas do setor, como Fábio Wolff (diretor da Wolff Sports & Marketing), Henrique Gutierres (CMO Vasco da Gama Saf), Marcos Senna (diretor de marketing do Flamengo) e a moderação de Filipe Alves Rodrigues (advogado e CEO do Jogo Positivo).
Wolff abriu a discussão, falando sobre a importância da indústria para o futebol brasileiro: “Temos 108 clubes com patrocínios fechados, entre clubes nacionais e internacionais. A indústria de apostas hoje é fundamental para o ecossistema do futebol brasileiro.
O futebol brasileiro hoje não se sustenta sem a indústria de apostas. As casas de apostas investem valores 15 vezes maiores que empresas de outros segmentos”.
Ele alertou, também, para uma espécie de inflação que empresas do setor enfrentam quando buscam patrocinar uma equipe, e também afirmou não acreditar em um possível aumento nos valores: “Muitas vezes, quando abordamos clubes de futebol, eles cobram um valor diferente para casas de apostas.
Eu acredito que, para os times de topo, como Flamengo, Corinthians e Palmeiras, [os valores] não devem aumentar, pois já estão em valores semelhantes a times como a Internazionale, da Itália”.
Gutierres citou a importância da profissionalização dentro do esporte, lembrando os casos de Flamengo e Palmeiras: “Quando começamos a ter gestões diferenciadas, as empresas começam a se aproximar desses clubes”.
Para Senna, os valores altos também são reflexo de uma indústria jovem e que busca protagonismo: “As apostas nasceram a não muito tempo no Brasil, por isso precisam ser conhecidas. Passamos por isso com o Mercado Livre, que afirmou: ‘porque precisamos expor nossa marca no Flamengo se somos conhecidos por 99% do mercado?”.
Uma preocupação comum às casas de apostas e também aos operadores diz respeito à manipulação de resultados. Para combater isso, Wolff vê a educação dos atletas como fator principal: “É importante que os clubes façam um trabalho com todos os níveis de atleta, desde a base.
Infelizmente, nós estamos nos deparando com situações super desagradáveis de atletas que recebem milhões de reais, outros que não recebem milhões, mas recebem bem, e que se vendem por um cartão amarelo. As casas são prejudicadas, mas o público não entende isso. Por isso é importante fazer esse processo desde a base”.
Flabet pode ser um caminho para o aumento de receitasAlém de contar com o patrocínio da Pixbet, o Flamengo também conta com um produto sem igual dentro do mercado brasileiro, a Flabet.
A casa de apostas licenciada pelo clube é operada pelo grupo dono da Pixbet. O faturamento mínimo previsto pelo Flamengo é de R$ 82,5 milhões até o final de 2027.
Senna explicou os pormenores do contrato, e como o clube e a pixbet costuraram o acordo para evitar possíveis conflitos de interesse: “A Flabet é uma empresa do grupo da Pixbet. Nós fizemos um acordo que não havia sido feito ainda. Nós procuramos referências, e não encontramos. A priori, pode parecer um conflito de interesse.
O Flamengo é sócio do depósito que o cliente faz. Quando o cliente deposita R$ 100, o Flamengo ganha um percentual. A partir desse momento, o Flamengo não recebe ou perde nada. Não há hipótese do Flamengo ter qualquer visibilidade, interesse ou resultado em cima da aposta do jogador. Conseguimos então mitigar qualquer tipo de conflito de interesse. É mais um contrato de licenciamento, como tantos outros que temos”.
Clubes devem ser aliados do Jogo ResponsávelEm alta desde o início do processo de regulamentação, o Jogo Responsável é um ponto de interesse tanto para operadores como também para reguladores. E como os clubes podem auxiliar nisso? De acordo com Wolff, através da sua força de comunicação: “Nós precisamos usar a força de comunicação dos clubes e das entidades. Infelizmente, o Brasil respira futebol. 95% do que vemos de esporte na mídia, é futebol. Então precisamos educar. Precisamos trazer os ídolos para comunicar aos torcedores sobre a importância do Jogo Responsável. Nós já deveríamos estar regulamentados a tempos atrás, mas agora que regulamentou, os clubes e ídolos precisam abraçar essa causa”.
“O papel dos clubes é de serem protagonistas, usando seus jogadores para reforçar isso. Tudo isso começa com um processo interno de conscientização. Nós vemos muitos casos de jogadores que publicamente dizem que fizeram apostas. Aconteceu recentemente com o Ferreirinha, no Grêmio, que postou brincando sobre isso nas redes sociais.
Se os clubes não ensinarem os jogadores do que pode e o que não pode, eles vão se expor, colocando em risco a imagem de todo o setor. Isso tem que ser feito antes internamente, de fora para dentro e depois de dentro para fora”, completou Gutierres.O que esperar daqui para frente?Com um mercado extremamente aquecido, mas que ao mesmo tempo espera para ver os efeitos da regulamentação em prática, o que podemos esperar para 2025? Para Wolff, muita coisa segue imprevisível: “Muitos adotaram o modo Standby, esperando para ver como a indústria iria operar na prática.
O que aconteceu então foi um pequeno gap de quem já tinha vendido e quem estava procurando vender. Esse vazio está começando a sumir. No entanto, não é uma festa sem fim. Quem está vendendo assets, pense na entrega, em como trazer o patrocinador para a plataforma. O difícil não é fechar patrocínio, e sim renovar patrocínio”.
“Precisamos fazer com que esse crescimento seja sustentável. Antigamente, a receita de um clube de futebol era: bilheteria, alguns patrocínios e o contrato da Globo. E o contrato da Globo era responsável por mais da metade da receita do clube. Hoje, é uma parcela muito menor. O Flamengo, sem o contrato da Globo, não precisaria vender nenhum jogador. Temos fontes de receitas mais diversificadas”, finalizou Senna.

