Banco Central inclui jogos de azar na projeção do IPCA
O Banco Central (BC) do Brasil passou a considerar, de forma inédita, os jogos de azar como item específico na coleta de projeções para o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA). A inclusão aconteceu na nova edição do Questionário Pré-Copom (QPC), instrumento enviado periodicamente aos agentes do mercado financeiro para embasar as reuniões do Comitê de Política Monetária (Copom).
Segundo informações divulgadas pelo portal Focus Brasil e também pelo jornal Valor Econômico, a mudança foi oficializada na sexta-feira, dia 18, e já será aplicada à reunião marcada para os dias 29 e 30 de julho.
Nova abordagem reflete crescimento das apostas
A decisão do BC reforça o peso que o setor de apostas tem ganhado na economia brasileira. Empresas de bets já representam quase 1% do Produto Interno Bruto (PIB) do país, segundo estudos recentes, e o impacto do setor nas dinâmicas de consumo e preços começa a atrair maior atenção das autoridades econômicas.
Com isso, o BC solicitou aos analistas que compartilhem suas estimativas de inflação para os jogos de azar nos anos de 2025 e 2026, incluindo essa nova categoria ao lado de itens tradicionais como gasolina, alimentação em domicílio, plano de saúde e automóveis novos.
O que é o Questionário Pré-Copom?
O QPC é uma ferramenta usada pelo Banco Central para coletar percepções do mercado financeiro sobre as expectativas macroeconômicas antes das reuniões do Copom, órgão responsável pela definição da taxa Selic. Ele é enviado geralmente na penúltima sexta-feira que antecede o encontro do colegiado.
No documento, os agentes são questionados sobre projeções de inflação, desempenho do Produto Interno Bruto (PIB), situação fiscal, mercado de trabalho, política monetária internacional, entre outros indicadores-chave.
Na edição atual, além dos jogos de azar, também foram incluídas projeções sobre o IPCA para automóveis novos, evidenciando o interesse do BC por setores que vêm apresentando movimentações atípicas nos preços.
Jogos de azar e política monetária
Com a regulamentação recente das apostas esportivas e do mercado de iGaming, o setor vem expandindo de maneira significativa, movimentando bilhões em receitas, investimentos em publicidade e parcerias com clubes esportivos e eventos culturais. Essa dinâmica de crescimento pode influenciar a demanda agregada e, consequentemente, os preços de bens e serviços associados direta ou indiretamente ao segmento.
Ao incluir o setor no QPC, o BC busca entender melhor como a evolução das apostas pode afetar a inflação futura, seja pelo consumo relacionado, pelo impacto nos serviços digitais ou até pela arrecadação tributária gerada a partir da legalização.
Outros tópicos do questionário
Além das novidades, o questionário manteve temas tradicionais como:
- Projeções para as bandeiras tarifárias da energia elétrica
- Crescimento do PIB e situação fiscal
- Cenário externo, incluindo os efeitos da guerra comercial na inflação brasileira
- Indicadores do mercado de trabalho, como desemprego e rendimento real
Nesta edição, no entanto, o hiato do produto — estimativa que mede a diferença entre o PIB real e o PIB potencial — não foi solicitado, ao contrário do que ocorreu na rodada anterior.
Impacto regulatório e transparência
A medida do Banco Central também pode ser vista como um reflexo do avanço regulatório conduzido pelo Ministério da Fazenda, por meio da Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA/MF). A formalização do setor de jogos permitiu maior rastreabilidade e fornecimento de dados confiáveis sobre as movimentações financeiras das casas de apostas.
Isso proporciona ao BC uma base mais sólida para analisar o comportamento do setor e sua correlação com a inflação de serviços, tributação e renda disponível — elementos que compõem o cenário macroeconômico avaliado pelo Copom na definição da política monetária.
Um setor sob observação
Com o setor de apostas cada vez mais integrado à economia formal, a tendência é que ele continue a ser monitorado de forma ativa pelas instituições públicas. A expectativa é que, nos próximos trimestres, a presença dos jogos de azar nos relatórios técnicos e projeções do Banco Central se intensifique, contribuindo para análises mais robustas e decisões monetárias mais alinhadas com a nova realidade do consumo no país.

