CEO da Alea revela desafios do mercado regulado de jogos no Brasil
Com o avanço da regulamentação das apostas online no Brasil, o papel das empresas de tecnologia tornou-se cada vez mais estratégico para operadores e provedores de conteúdo. A transição do mercado para um ambiente regulado trouxe novos desafios técnicos, operacionais e fiscais que exigem adaptação constante das empresas do setor.
Em entrevista exclusiva à Focus Gaming News, Jordi Sendra, CEO da Alea, comentou sobre a experiência da companhia como a primeira agregadora de jogos a operar oficialmente no país. Segundo o executivo, o primeiro ano do mercado regulamentado trouxe aprendizados importantes e revelou diferenças significativas entre as expectativas internacionais e a realidade do ecossistema brasileiro.
Para Sendra, o Brasil representa um dos mercados mais promissores do setor de iGaming, mas também um dos mais complexos em termos de adaptação regulatória e operacional.
Expectativa internacional versus realidade brasileira
Quando o processo de regulamentação começou, muitos fornecedores internacionais acreditavam que o Brasil seguiria o mesmo modelo de mercados europeus já consolidados. No entanto, a realidade encontrada no país mostrou um cenário bem diferente.
De acordo com o CEO da Alea, diversos provedores de jogos não estavam preparados para atender às exigências regulatórias brasileiras. Alguns sequer tinham planos concretos de entrar no mercado naquele momento.
Outro obstáculo importante foi a limitação de capacidade dos laboratórios responsáveis pela certificação dos jogos. Com centenas de empresas tentando validar seus produtos simultaneamente, os processos de testes ficaram sobrecarregados.
A Alea conseguiu antecipar esse gargalo, iniciando os preparativos antes da maioria das empresas. Isso permitiu que a agregadora organizasse seu portfólio de jogos e priorizasse a certificação dos títulos mais relevantes para os jogadores brasileiros.
O papel da Secretaria de Prêmios e Apostas
Mesmo após o início oficial do mercado regulado em 2025, o ambiente não se estabilizou imediatamente. Durante grande parte do ano, a Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA), vinculada ao Ministério da Fazenda, concentrou esforços em eliminar remanescentes do mercado paralelo e aprimorar as normas regulatórias.
Isso fez com que muitas operadoras precisassem adaptar constantemente suas plataformas e processos para cumprir novas exigências regulatórias.
Segundo Sendra, o maior desafio não foi apenas técnico. Muitos fornecedores estrangeiros tinham dificuldades para compreender o complexo sistema tributário brasileiro e os requisitos de relatórios exigidos pelo regulador.
Nesse contexto, a Alea passou a atuar também como uma espécie de consultoria estratégica, auxiliando parceiros internacionais a estruturar suas operações de acordo com as exigências locais.
Tributação e impacto no modelo de negócios
Outro ponto de atenção destacado pelo executivo é o impacto da carga tributária no setor de apostas online. Em 2025, a alíquota aplicada sobre a receita bruta de jogos (GGR) foi definida em 12%.
No entanto, o cenário tributário evoluiu rapidamente. Para 2026, a taxa foi elevada para 13%, além de outras medidas fiscais que já estão sendo debatidas e podem afetar diretamente os operadores.
Entre essas medidas está a possibilidade de novas tributações relacionadas aos depósitos realizados pelos jogadores. Segundo Sendra, compreender o impacto dessas taxas no fluxo financeiro das empresas tornou-se parte fundamental da estratégia operacional.
Esse ambiente fiscal complexo exige planejamento detalhado para garantir que as operadoras mantenham margens de lucro sustentáveis no longo prazo.
Infraestrutura e desafios técnicos
O mercado brasileiro apresenta características tecnológicas muito específicas, especialmente quando se trata de comportamento dos usuários.
Segundo dados analisados pela Alea, cerca de 84% dos jogadores utilizam dispositivos móveis para acessar plataformas de apostas e jogos online.
Esse fator cria desafios relevantes para empresas internacionais que operam a partir da Europa ou de outros continentes. Os horários de pico de atividade no Brasil geralmente acontecem no período noturno, justamente quando muitas equipes estrangeiras já encerraram suas atividades.
Além disso, as plataformas precisam estar preparadas para lidar com picos extremamente elevados de tráfego.
- Até 21 mil transações por segundo em momentos de alta demanda;
- Infraestrutura otimizada para dispositivos móveis;
- Suporte técnico ativo durante horários de pico do mercado brasileiro;
- Baixa latência para garantir experiência fluida aos jogadores.
Esses elementos são considerados essenciais para manter o interesse do usuário e garantir a estabilidade das operações.
Mudança de mentalidade dos operadores
A regulamentação também exigiu uma mudança profunda na forma como as operadoras administram seus negócios.
No chamado “mercado cinza”, que predominava antes da regulamentação, muitas empresas priorizavam crescimento rápido e volume de apostas, sem grande preocupação com transparência financeira.
No ambiente regulado atual, essa abordagem pode representar um risco sério para as empresas. A legislação brasileira exige rastreabilidade completa das transações financeiras realizadas nas plataformas.
Isso significa que operadores precisam demonstrar claramente como os recursos circulam dentro de seus sistemas.
A incapacidade de apresentar essas informações pode resultar em sanções regulatórias ou até na perda da licença de operação.
Preferências dos jogadores brasileiros
Outro ponto interessante observado pela Alea está relacionado ao comportamento dos jogadores no Brasil.
O mercado demonstrou forte preferência por jogos do tipo Crash, além de slots com temática asiática, especialmente entre usuários que acessam plataformas por meio de dispositivos móveis.
No entanto, Sendra afirma que sinais iniciais de mudança começam a surgir. Parte da base de jogadores está demonstrando interesse crescente em mecânicas de jogos mais complexas e experiências diferenciadas.
Embora ainda não represente uma transformação completa do mercado, essa tendência indica que o ecossistema brasileiro pode evoluir gradualmente para uma oferta mais diversificada de conteúdo.
Nova fase do mercado em 2026
Segundo o CEO da Alea, a corrida inicial para lançar operações no mercado regulado terminou em 2025. Agora, o foco das empresas passou a ser sustentabilidade e rentabilidade.
Com custos crescentes de aquisição de usuários e aumento da carga tributária, apenas operadores com infraestrutura tecnológica eficiente e parceiros estratégicos conseguirão manter seus modelos de negócio viáveis.
Entre os desafios atuais está a adaptação às exigências do sistema SIGAP, responsável pelo monitoramento regulatório das atividades do setor.
Isso inclui relatórios automatizados baseados em APIs e integração constante de dados entre operadoras, fornecedores de jogos e a infraestrutura regulatória do governo.
Segurança digital e fraudes
Outro desafio crescente envolve segurança digital. Segundo Sendra, o setor tem observado aumento em tentativas de fraude envolvendo abuso de bônus e criação de identidades falsas com auxílio de inteligência artificial.
A arquitetura tecnológica da Alea permite identificar padrões suspeitos analisando dados de múltiplos operadores e provedores simultaneamente.
Essa visão ampla do ecossistema permite detectar anomalias que muitas vezes passariam despercebidas se analisadas apenas dentro de uma única plataforma.
O futuro da agregação no iGaming
Para o executivo, o papel das agregadoras de jogos está evoluindo rapidamente. No passado, essas empresas funcionavam basicamente como canais de distribuição de conteúdo.
Hoje, a função vai muito além disso. Plataformas como a Alea estão se tornando centros de inteligência capazes de oferecer dados analíticos, ferramentas de gestão e insights estratégicos para operadoras.
Com recursos como análise em tempo real e controle de configurações de RTP, operadores podem tomar decisões baseadas em dados concretos em vez de depender apenas de estimativas.
Esse modelo permite otimizar portfólios de jogos, melhorar a retenção de usuários e aumentar a eficiência financeira das plataformas.
Para Sendra, no ambiente competitivo atual do mercado brasileiro, agregadores que oferecem inteligência estratégica e suporte tecnológico robusto serão fundamentais para o sucesso das operadoras.
À medida que o setor continua amadurecendo, o Brasil tende a se consolidar como um dos principais polos globais de crescimento do mercado de apostas online.
Empresas que conseguirem equilibrar inovação tecnológica, conformidade regulatória e conhecimento do comportamento local dos jogadores terão vantagem significativa nesse cenário em rápida transformação.
Fonte: Focus Brasil – focusgn.com
Autor: henriquea

