Jogo do Bicho vira atração cultural na Rússia
Em uma surpreendente reviravolta cultural, o tradicional Jogo do Bicho — prática considerada ilegal no Brasil — foi apresentado como expressão artística em plena capital russa. A exposição acontece no GES-2, um dos mais importantes centros culturais de Moscou, e despertou curiosidade entre o público local.
De acordo com informações publicadas pelo blog de Ancelmo Gois, o evento exibe o jogo criado por João Batista Viana Drummond, o Barão de Drummond (1825-1897), como parte integrante da cultura popular brasileira. A mostra destaca a influência do jogo nas práticas sociais e na identidade do país, reinterpretando-o sob um viés artístico e histórico.
Um jogo proibido que virou arte
O Jogo do Bicho surgiu no final do século XIX, no Rio de Janeiro, quando o Barão de Drummond buscava novas formas de atrair visitantes ao Jardim Zoológico de Vila Isabel. A ideia era simples: vender bilhetes numerados associados a figuras de animais. O sucesso foi imediato, e rapidamente o jogo ultrapassou os muros do zoológico, tornando-se uma prática popular em todo o país.
Embora o Jogo do Bicho seja proibido por lei no Brasil desde 1946, ele segue fortemente enraizado na cultura popular. Suas expressões, códigos e simbologias fazem parte do cotidiano de milhões de brasileiros, mesmo com o caráter ilegal da atividade.
Na Rússia, porém, o contexto foi outro. Na exposição de arte brasileira realizada no GES-2, as cartelas exibidas trazem os nomes dos animais traduzidos para o russo e o inglês, acompanhados de descrições visuais que remetem ao folclore e à estética tropical.
Interpretação cultural e simbólica
A curadoria da mostra explica que o Jogo do Bicho foi escolhido como símbolo da “criatividade e resistência cultural brasileira”. Ao invés de ser retratado como uma prática de aposta, o jogo é reinterpretado como um fenômeno artístico, representando a capacidade do povo brasileiro de reinventar-se em meio às adversidades.
O público russo, acostumado a uma tradição artística bastante distinta, pareceu encantado com a riqueza visual e a originalidade da proposta. As cores, os símbolos dos bichos e o caráter lúdico da exposição despertaram curiosidade e interesse entre os visitantes.
O espaço GES-2 e a valorização da arte estrangeira
O GES-2 é um dos principais centros culturais de Moscou, conhecido por abrigar exposições de arte contemporânea e projetos de intercâmbio internacional. A instituição tem buscado ampliar sua programação com artistas e temas de diversas partes do mundo, e a presença do Brasil na agenda reforça essa proposta.
Segundo os organizadores, a mostra pretende aproximar os visitantes de manifestações culturais latino-americanas pouco conhecidas no Leste Europeu, incentivando o diálogo entre tradições distintas. A escolha do Jogo do Bicho como objeto de estudo reflete o interesse crescente pela cultura brasileira fora do país.
O Barão de Drummond e seu legado
O Barão de Drummond, nascido em Minas Gerais, foi um empresário e filantropo que se destacou por sua visão inovadora. Fundador do Jardim Zoológico do Rio de Janeiro, ele criou o Jogo do Bicho em 1892 para financiar o funcionamento do parque. O jogo consistia em associar números a animais — uma forma simples, mas engenhosa, de atrair apostadores.
Com o passar do tempo, a prática se espalhou rapidamente por todo o país, transformando-se em uma tradição paralela à economia formal e influenciando expressões artísticas, músicas e até a linguagem popular.
Hoje, o legado do Barão é revisitado sob novos ângulos. A exposição em Moscou reconhece o valor histórico e simbólico dessa invenção, desvinculando-a de seu aspecto ilegal e destacando seu papel como parte da identidade nacional brasileira.
Um olhar global sobre o popular
Para estudiosos da arte e da antropologia cultural, o reconhecimento do Jogo do Bicho em um espaço de prestígio como o GES-2 representa um marco na valorização das expressões populares. O que antes era marginalizado passa a ser observado como parte essencial da construção cultural do Brasil.
Além disso, a exposição levanta debates sobre os limites entre cultura e legalidade, mostrando que práticas populares podem transcender fronteiras e adquirir novos significados em contextos diferentes.
Enquanto no Brasil o jogo permanece à margem da lei, em Moscou ele é celebrado como arte. Essa dualidade reforça o contraste entre a repressão jurídica e o reconhecimento cultural, revelando como a arte é capaz de ressignificar tradições e promover diálogos entre povos.
O futuro das manifestações populares brasileiras
Especialistas apontam que a internacionalização de manifestações como o Jogo do Bicho pode abrir portas para um novo olhar sobre a cultura brasileira. Em um mundo cada vez mais conectado, elementos antes considerados “marginais” passam a ser valorizados por seu caráter autêntico e representativo.
Essa tendência já pode ser observada em outros segmentos da arte contemporânea, onde o folclore, as tradições orais e as práticas comunitárias ganham destaque como expressões legítimas da identidade de um povo.
A presença do Jogo do Bicho em uma exposição russa simboliza, portanto, mais do que um simples reconhecimento estético: trata-se de uma valorização da cultura popular e de sua capacidade de transcender barreiras.
De um passatempo ilegal nas ruas do Rio de Janeiro ao status de arte em Moscou, o jogo criado pelo Barão de Drummond prova que a cultura é viva, mutável e, acima de tudo, universal.
Fonte: BNLData – bnldata.com.br

