Kalshi proibe apostas ligadas a mortes e enfrenta nova polemica
O mercado global de previsões voltou ao centro das discussões após o CEO e cofundador da plataforma Kalshi, Tarek Mansour, anunciar uma mudança importante na política da empresa. A plataforma decidiu proibir definitivamente contratos de apostas relacionados diretamente à morte de indivíduos, incluindo assassinatos, execuções extrajudiciais, sequestros e outros eventos fatais com motivação política.
A declaração foi feita por Mansour por meio da rede social X, em meio a uma crescente crise geopolítica no Oriente Médio. A decisão surge após a repercussão internacional do ataque aéreo conjunto realizado por Estados Unidos e Israel no dia 1º de março, que resultou na morte do líder supremo iraniano, aiatolá Ali Khamenei.
Segundo o executivo, a plataforma sempre evitou permitir que usuários lucrassem diretamente com eventos envolvendo mortes. “Não listamos mercados diretamente ligados à morte. Quando existem cenários em que os resultados podem envolver fatalidades, criamos regras específicas para impedir que alguém lucre com esse tipo de situação”, afirmou Mansour.
O caso reacendeu o debate sobre a regulamentação dos mercados de previsão e seus limites éticos dentro do ecossistema de iGaming e das plataformas de apostas baseadas em eventos políticos e econômicos.
Mercados de previsão ganham destaque global
Os chamados mercados de previsão funcionam de forma semelhante às apostas tradicionais, mas focam em eventos do mundo real. Usuários podem investir em contratos que tentam prever acontecimentos como eleições, mudanças políticas, decisões econômicas ou até eventos internacionais relevantes.
Nos últimos anos, esse modelo ganhou popularidade entre investidores e entusiastas de tecnologia financeira. No entanto, o crescimento também trouxe preocupações sobre possíveis abusos e manipulação de informações.
No caso da Kalshi, diversos contratos foram registrados prevendo uma possível queda do governo iraniano pouco antes do ataque que resultou na morte de Khamenei. Algumas dessas previsões foram feitas apenas horas antes da operação militar.
Essa sequência de acontecimentos levantou suspeitas e gerou forte repercussão entre apostadores e analistas do setor.
Kalshi se recusa a pagar apostas ligadas ao ataque
Após o ocorrido, a Kalshi decidiu não pagar os apostadores que haviam investido em contratos relacionados à mudança no governo iraniano. A empresa argumenta que os contratos foram estruturados para prever a queda do governo e não a morte de seus líderes políticos.
Segundo a plataforma, a distinção é fundamental dentro das regras de funcionamento do mercado.
“Algumas pessoas acreditam que deveríamos listar mercados sem excluir cenários de morte, pois isso simplificaria as regras. No entanto, entidades regulamentadas nos Estados Unidos não podem permitir contratos diretamente ligados à morte de indivíduos”, explicou Mansour.
A postura da empresa, entretanto, gerou insatisfação entre parte dos usuários que haviam apostado nesses contratos.
Ameaça de processo coletivo
Relatos indicam que diversos apostadores estão avaliando a possibilidade de entrar com uma ação coletiva contra a plataforma. O objetivo seria exigir o pagamento das apostas realizadas antes do ataque.
Especialistas jurídicos apontam que a disputa pode se tornar um caso emblemático para o setor, pois envolve interpretação das regras contratuais e também os limites legais dos mercados de previsão.
A empresa, que tem sede em Nova York, já enfrenta crescente pressão regulatória nos Estados Unidos, especialmente por parte de órgãos responsáveis pela supervisão de mercados financeiros.
A Commodity Futures Trading Commission (CFTC), responsável pela regulação desse tipo de mercado no país, acompanha o caso de perto. Mais detalhes sobre a atuação da entidade podem ser consultados no site oficial da Commodity Futures Trading Commission.
Polymarket enfrenta escândalos paralelos
Enquanto a Kalshi tenta conter a polêmica, sua principal concorrente, a Polymarket, também enfrenta uma série de controvérsias envolvendo possíveis casos de uso de informação privilegiada.
A plataforma, também sediada em Manhattan, foi citada em diversas investigações que apontam negociações suspeitas relacionadas a eventos geopolíticos recentes.
Entre os episódios investigados estão apostas feitas pouco antes da chamada “Guerra dos Doze Dias” envolvendo Irã, Estados Unidos e Israel. Usuários da plataforma teriam obtido lucros significativos ao prever ataques militares com grande precisão.
Em um dos casos citados por analistas do mercado, um apostador teria obtido cerca de US$ 100 mil ao prever que Israel realizaria ataques contra o Irã antes do final de junho de 2025.
Além disso, outra operação suspeita envolveu apostas relacionadas à suposta queda do governo da Venezuela liderado por Nicolás Maduro.
Lucros suspeitos em apostas geopolíticas
| Evento | Lucro estimado | Plataforma |
|---|---|---|
| Ataque israelense ao Irã | US$ 100 mil | Polymarket |
| Suposta queda do governo Maduro | US$ 400 mil | Polymarket |
| Apostas antes de ataque aéreo EUA-Israel | US$ 330 mil | Polymarket |
Investigações jornalísticas indicam que parte dessas apostas pode ter sido realizada com base em informações privilegiadas.
Uma reportagem publicada pelo jornal Financial Times revelou que apostas incomuns feitas por 12 contas suspeitas geraram cerca de US$ 330 mil em lucro poucos dias antes de um ataque militar no Oriente Médio.
Segundo a investigação, metade dessas contas teria sido criada apenas algumas horas antes da operação militar.
Suspeitas de uso de informação privilegiada
Analistas do setor financeiro afirmam que apostas feitas com grande volume financeiro e timing extremamente preciso costumam levantar suspeitas de acesso a informações internas.
Matt Saincome, executivo-chefe da empresa de análise financeira Unusual Whales, afirmou que esse tipo de comportamento não passa despercebido.
“Quando uma carteira nova faz uma aposta muito grande em um único evento, é natural questionar o motivo. Pode ser alguém apenas arriscando, mas também pode indicar que a pessoa possui algum tipo de informação privilegiada”, afirmou ao Financial Times.
Essas suspeitas ampliaram o debate sobre a necessidade de fiscalização mais rigorosa nesse tipo de plataforma.
Senadores pressionam por novas regras
A polêmica chegou também ao cenário político norte-americano. Um grupo de seis senadores dos Estados Unidos enviou uma carta à CFTC solicitando uma investigação aprofundada sobre os mercados de previsão.
Entre os parlamentares que assinaram o documento estão Adam Schiff, Catherine Cortez Masto, Richard Blumenthal, Cory Booker, Tim Kaine e Jacky Rosen.
Os senadores defendem que contratos de previsão relacionados a guerra, terrorismo, assassinatos ou eventos violentos sejam completamente proibidos.
Segundo os legisladores, permitir apostas sobre acontecimentos desse tipo seria “eticamente e moralmente repugnante”.
Eles também argumentam que a legislação federal norte-americana já estabelece limites para contratos financeiros que envolvam diretamente eventos violentos ou conflitos armados.
Debate sobre ética e regulamentação
O crescimento dos mercados de previsão tem provocado discussões profundas sobre ética, transparência e responsabilidade no setor de apostas.
Especialistas afirmam que, embora essas plataformas possam oferecer ferramentas interessantes para análise de probabilidades e tendências globais, também podem gerar incentivos problemáticos quando associadas a tragédias humanas ou crises políticas.
Dentro do setor de legislação do mercado de apostas, cresce o entendimento de que novas regras serão necessárias para equilibrar inovação tecnológica com responsabilidade social.
Com a pressão política e as investigações em andamento, tanto a Kalshi quanto a Polymarket devem continuar sob forte escrutínio nos próximos meses.
Para muitos especialistas, o desfecho dessas controvérsias poderá definir o futuro dos mercados de previsão e estabelecer novos padrões de regulação para esse segmento em rápida expansão.
Fonte: iGaming Future – igamingfuture.com
Autor: André Dubronski

