Rússia exibe Jogo do Bicho como arte cultural brasileira
O tradicional Jogo do Bicho, amplamente conhecido no Brasil, mas considerado ilegal desde a década de 1940, é apresentado como manifestação cultural em uma exposição no centro cultural GES-2, em Moscou. A mostra, em cartaz durante o mês de outubro de 2025, propõe uma reflexão sobre o papel sociocultural do jogo, destacando sua influência na identidade popular brasileira e o contraste com sua proibição em território nacional.
As cartelas expostas trazem os nomes dos animais traduzidos para russo e inglês, além de um grande painel visual com todos os bichos do jogo, criado há mais de um século. A iniciativa busca estimular o debate sobre como o Jogo do Bicho é percebido fora do Brasil e dentro dele — um símbolo cultural reconhecido por sua força popular, mas ainda tratado sob um viés de ilegalidade.
Interatividade e ressignificação cultural
De acordo com o professor e jornalista Luiz Carlos Prestes, que registrou a exposição diretamente da capital russa, os visitantes podem interagir com as imagens dos animais, espalhadas pelo espaço expositivo, de forma lúdica. As figuras podem ser “pescadas” pelos participantes, em uma dinâmica que remete às festas populares e jogos de rua brasileiros.
“Abre um bom debate nacional. Afinal, existe uma histórica tolerância com o Jogo do Bicho. Está nas calçadas de todo o Brasil. É hipocrisia dizer que este jogo não existe! Entendo que o reconhecimento internacional abre oportunidade para que o Jogo do Bicho seja reconhecido como patrimônio imaterial do povo brasileiro”, afirmou Prestes.
O relato de Prestes evidencia o quanto o jogo faz parte do cotidiano brasileiro, mesmo sem amparo legal, e como ele é percebido no exterior como uma expressão legítima da criatividade popular e da memória coletiva do país.
Evento dedicado a Lina Bo Bardi
A mostra faz parte do evento “Se essas paredes fossem água”, dedicado à arquiteta ítalo-brasileira Lina Bo Bardi, uma das maiores referências da arquitetura moderna no Brasil. A curadoria é assinada por André Vainer e Marcelo Ferraz, em colaboração com a equipe do GES-2 House of Culture. O Sesc Pompeia tem destaque especial dentro da exposição, celebrando sua relevância no legado de Lina.
O espaço de convivência foi inspirado nos princípios arquitetônicos de Lina, trazendo elementos como a floresta de paus-mastros, os bancos de beira de estrada, o dodecaedro e o polochon. Além disso, outra sala reúne fotografias, vídeos, textos e desenhos originais vindos do Brasil, mostrando a trajetória e o pensamento da arquiteta sobre o papel social da arquitetura.
Obras e legado
A exposição também destaca projetos icônicos da arquiteta, como a Casa de Vidro, o Museu de Arte de São Paulo (MASP), a Ladeira da Misericórdia e o Teatro Oficina. O propósito é aproximar a arquitetura do público comum, tornando-a acessível e participativa, em sintonia com a filosofia de Lina Bo Bardi.
O GES-2, por sua vez, foi concebido pelo renomado arquiteto Renzo Piano e compartilha uma visão semelhante à de Lina: ambos transformaram antigas estruturas industriais em espaços culturais e de lazer. Essa convergência de ideias fortalece o diálogo entre Brasil e Rússia sobre o papel da arte e da arquitetura na formação da cidadania.
Parcerias e colaborações
A realização da exposição contou com a parceria curatorial de Andrei Vasilenko, Karen Sarkisov e Katerina Chuchalina, além do apoio do Instituto Bardi e do Sesc Pompeia. A entrada é gratuita e o evento é aberto a visitantes de todas as idades, reforçando o caráter inclusivo e educativo da mostra.
Ao reunir arte, arquitetura e manifestações populares, o evento propõe um diálogo entre diferentes formas de expressão, destacando a importância da cultura brasileira no cenário internacional.
O Jogo do Bicho como patrimônio cultural
A advogada Ana Paula Gatti também comentou sobre o destaque dado ao Jogo do Bicho na exposição, apontando para a ironia de ver o jogo reconhecido no exterior enquanto continua marginalizado no Brasil.
“O Jogo do Bicho é o genuíno produto da cultura brasileira e chega a ser irônico vê-lo reverenciado internacionalmente e marginalizado em nosso país. Assim como aconteceu com a capoeira, criminalizada no passado e hoje reconhecida como patrimônio cultural imaterial da Humanidade.”
Gatti também aproveitou o momento para criticar a falta de avanços na regulamentação dos jogos no Brasil:
“Simbólica essa exposição no momento em que completamos 84 anos da hipocrisia da criminalização dos jogos e do não avanço de um marco regulatório para todas as modalidades. Que o Jogo do Bicho encontre a mesma resiliência e que as máscaras da hipocrisia sejam derrubadas pelo tempo.”
O discurso reforça o papel do Jogo do Bicho como símbolo de resistência cultural e de identidade nacional. Embora ilegal, o jogo sobrevive há mais de um século, refletindo a criatividade e a adaptabilidade do povo brasileiro — características que agora ganham reconhecimento internacional.
Entre a proibição e o reconhecimento
O destaque dado pelo GES-2 ao Jogo do Bicho mostra como a cultura popular brasileira desperta interesse fora do país. Ao transformá-lo em arte, a exposição abre espaço para um novo olhar sobre práticas culturais marginalizadas, promovendo o debate sobre o que realmente deve ser considerado patrimônio imaterial.
Para muitos observadores, o reconhecimento internacional do jogo pode contribuir para uma reavaliação de seu papel histórico e simbólico dentro do Brasil. O paralelo com a capoeira — que passou de prática criminalizada a patrimônio cultural da Humanidade — ilustra como expressões populares podem se transformar em símbolos de orgulho nacional.
A exposição em Moscou reforça, assim, o poder da arte e da cultura como pontes entre nações. De um jogo nascido nas ruas do Rio de Janeiro a uma instalação artística em uma das principais galerias da Rússia, o Jogo do Bicho continua a revelar o Brasil que resiste, cria e se reinventa.
Fonte: BNLData – bnldata.com.br

