IBJR avalia consolidacao do iGaming regulado no Brasil
O ano de 2025 marcou um ponto de inflexão para o mercado brasileiro de iGaming e apostas online. Após anos operando em um ambiente sem regras claras, o setor iniciou seu primeiro ciclo completo sob um modelo regulado, com licenças federais, exigências de compliance e mecanismos de proteção ao consumidor. Para André Gelfi, diretor-conselheiro e cofundador do Instituto Brasileiro de Jogo Responsável (IBJR), o período foi de consolidação, mas também de grandes desafios.
Em entrevista à Focus Gaming News, Gelfi destacou que a regulamentação trouxe ganhos concretos para o país, tanto do ponto de vista econômico quanto institucional. Ao mesmo tempo, o executivo reforçou que o combate ao mercado clandestino e a estabilidade regulatória serão decisivos para o futuro do setor.
2025 como marco da transicao regulatoria
Segundo André Gelfi, 2025 simbolizou a passagem definitiva de um ambiente informal para um mercado estruturado, com regras claras de operação, fiscalização e responsabilidade. A entrada em vigor da Lei 14.790/2023 permitiu o início da emissão de licenças federais e estabeleceu um novo padrão de funcionamento para as operadoras.
Entre as principais exigências implementadas estão mecanismos de reconhecimento facial, verificação de CPF, políticas de jogo responsável, controles de prevenção à lavagem de dinheiro e monitoramento financeiro em tempo real. Essas medidas elevaram significativamente o nível de segurança e transparência para os apostadores.
Ao longo desse processo, o IBJR teve atuação ativa em debates, eventos e reuniões com reguladores, operadores e especialistas, contribuindo para esclarecer dúvidas e fortalecer a cultura regulatória em um ano de grande visibilidade pública para o setor.
Impactos economicos imediatos da regulacao
Do ponto de vista fiscal, os efeitos da regulamentação foram rápidos. Até outubro de 2025, o governo federal arrecadou mais de R$ 2,3 bilhões em outorgas de licenças e cerca de R$ 7,9 bilhões em tributos ligados ao setor de apostas e jogos online.
Esse volume de recursos reforçou o potencial arrecadatório do mercado regulado e demonstrou a importância econômica do setor. Paralelamente, a profissionalização das operadoras licenciadas avançou de forma consistente, atraindo novos investimentos e ampliando a presença de empresas comprometidas com boas práticas.
Como reflexo desse amadurecimento, diversas operadoras passaram a integrar o IBJR ao longo do ano, fortalecendo uma agenda coletiva voltada ao jogo responsável, à integridade esportiva e à sustentabilidade do mercado brasileiro.
Geracao de empregos e desenvolvimento do setor
Outro efeito estrutural apontado por Gelfi foi o impacto positivo na economia real. Atualmente, o setor de apostas e jogos online emprega cerca de 15 mil pessoas no Brasil, em funções técnicas e especializadas, com salários médios quase duas vezes superiores à média nacional.
As empresas licenciadas investiram bilhões de reais para iniciar operações formais no país, impulsionando áreas como marketing, tecnologia, engenharia de dados, compliance e atendimento ao consumidor. Esse movimento gerou empregos diretos e indiretos e contribuiu para o desenvolvimento de competências estratégicas no mercado nacional.
Atuacao institucional e dialogo em Brasilia
Além dos avanços operacionais, o fortalecimento institucional do setor também se refletiu no diálogo com o poder público. Em Brasília, o IBJR participou ativamente das discussões regulatórias, defendendo princípios como previsibilidade, estabilidade de regras e coerência tributária.
Para Gelfi, esses fatores são essenciais para que o mercado regulado permaneça competitivo e atrativo para investimentos de longo prazo. Mudanças abruptas ou mal calibradas tendem a gerar insegurança jurídica e abrir espaço para a atuação do mercado ilegal.
Canalizacao ainda e o grande desafio
Apesar dos avanços, 2025 também evidenciou a dimensão do desafio da canalização. Estudos apontam que mais de 51% das apostas online no Brasil ainda ocorrem em plataformas clandestinas, desviando bilhões de reais em arrecadação e expondo consumidores a riscos.
De acordo com levantamento do Instituto Locomotiva em parceria com a LCA Consultoria Econômica, realizado a pedido do IBJR, o mercado ilegal segue sendo um concorrente relevante e difícil de combater.
Parte significativa dessas operações atua sem identidade de marca, focada apenas em capturar tráfego orgânico e converter apostadores por meio de redes sociais e buscas online. Essa lógica é oposta à das operadoras reguladas, que investem em marca, governança, reputação e conformidade.
Por que derrubar sites nao resolve
Segundo Gelfi, o simples bloqueio de sites ilegais não é suficiente para resolver o problema. Essas plataformas costumam reaparecer rapidamente com novos domínios e nomes diferentes, mantendo a mesma estrutura de operação.
Por isso, o combate ao clandestino exige uma abordagem mais ampla, envolvendo meios de pagamento, plataformas digitais, provedores de tecnologia e influenciadores que, direta ou indiretamente, alimentam esse ecossistema.
Aprimoramentos necessarios na regulacao
Para equilibrar crescimento, competitividade e proteção ao consumidor, o IBJR defende ajustes pontuais na regulação. A principal prioridade é reduzir o espaço do mercado ilegal, que prejudica a arrecadação, distorce a concorrência e compromete a imagem da indústria.
Outro ponto sensível é o risco regulatório. Em 2025, propostas de mudanças repentinas, especialmente nas áreas tributária e publicitária, geraram apreensão no setor. A criação de novos impostos, como a chamada CIDE-Bets, é vista como um exemplo de medida que pode ter efeito contrário ao desejado.
Ao tributar diretamente o apostador, esse tipo de proposta tende a afastar usuários do mercado legal, empurrando-os para plataformas clandestinas onde não há proteção nem garantias.
Estabilidade regulatoria como prioridade para 2026
Para 2026, o IBJR pretende intensificar a defesa da estabilidade regulatória e da previsibilidade das regras. Segundo Gelfi, aumentos desproporcionais de carga tributária ou restrições excessivas à publicidade prejudicam a competitividade das operadoras licenciadas.
Quando o mercado regulado perde capacidade de comunicação e diferenciação, o clandestino se fortalece, já que opera sem qualquer tipo de controle ou limitação.
A associação também seguirá promovendo o jogo responsável, reforçando que as apostas devem ser encaradas como entretenimento, e não como promessa de enriquecimento rápido.
Responsabilizacao de atores do ecossistema
Outra frente considerada estratégica é a responsabilização de atores que hoje contribuem para a ilegalidade. Isso inclui influenciadores digitais que promovem sites clandestinos, plataformas que hospedam conteúdo orgânico de jogos não regulados e provedores de jogos que atendem simultaneamente empresas legais e ilegais.
O IBJR defende que esses fornecedores só possam operar no Brasil caso atuem exclusivamente no ambiente regulado, fortalecendo a integridade do ecossistema.
Medidas eficazes adotadas em 2025
Entre as ações mais efetivas de 2025, Gelfi destaca o avanço no controle de pagamentos e no monitoramento de transações via PIX. O bloqueio de intermediadores financeiros irregulares ajudou a limitar a atuação de plataformas clandestinas.
Outro passo importante foi a decisão do Google de permitir aplicativos de operadoras licenciadas na Play Store, facilitando o acesso do consumidor a ambientes seguros. Ainda há expectativa de avanços semelhantes por parte da Apple.
Iniciativas de educação do consumidor, como a ferramenta BetAlert, que permite verificar se um site é autorizado, também contribuíram para aumentar a conscientização da população.
Publicidade, patrocinios e jogo responsavel
No campo da publicidade, o primeiro ciclo de aplicação das regras foi avaliado de forma positiva. As operadoras reguladas passaram a seguir as diretrizes do Anexo X do CONAR, adotando práticas mais responsáveis e transparentes.
Os patrocínios esportivos reforçaram a relevância econômica do setor. Em 2025, 18 dos 20 clubes da Série A do Campeonato Brasileiro masculino contaram com casas de apostas como patrocinadores master, totalizando cerca de R$ 1,1 bilhão por temporada.
Para o próximo ciclo, o desafio será ajustar as regras de forma equilibrada, evitando excessos que possam prejudicar o mercado legal e favorecer o clandestino.
Perspectivas e tendencias para 2026
O ano de 2026 tende a ser particularmente sensível para o setor, por coincidir com um grande evento esportivo global e com um período de intensa movimentação política no Brasil. Esse contexto aumenta a atenção sobre as apostas e pode gerar volatilidade no debate regulatório.
Nesse cenário, o combate ao mercado ilegal continuará no centro da agenda. Avançar no bloqueio de fluxos financeiros irregulares, responsabilizar a promoção de sites clandestinos e fortalecer ferramentas de identificação de operadores autorizados serão medidas decisivas.
Para André Gelfi, a escolha é clara: ou o Brasil fortalece um mercado regulado, que protege o consumidor e gera arrecadação, ou permite que o clandestino continue exposto, financiando atividades ilícitas e fragilizando a credibilidade do setor.
Consolidar a estabilidade das regras e reforçar a diferenciação entre o legal e o ilegal será fundamental para que o mercado brasileiro de apostas avance de forma sustentável nos próximos anos.
Fonte: Focus Brasil – focusgn.com

