Abrasce aponta impacto das bets no consumo dos shoppings
A Associação Brasileira de Shopping Centers (Abrasce) acendeu um alerta sobre os efeitos das apostas online no consumo do varejo brasileiro. Segundo a entidade, o crescimento das chamadas bets tem retirado recursos do orçamento das famílias, afetando diretamente o desempenho dos shoppings, especialmente entre consumidores mais endividados.
A avaliação foi apresentada nesta quarta-feira (5/2) durante a divulgação oficial dos resultados do setor em 2025. Na ocasião, o presidente da Abrasce, Glauco Humai, destacou que os sites de apostas movimentam cerca de R$ 30 bilhões por ano no Brasil, valor que, segundo ele, poderia estar sendo direcionado ao consumo no comércio tradicional.
Faturamento recorde, mas abaixo do esperado
Mesmo diante desse cenário desafiador, os shoppings centers brasileiros alcançaram um faturamento recorde em 2025. O setor registrou vendas totais de R$ 200,9 bilhões, o maior volume já alcançado na história. O resultado representou crescimento de 1,2% em relação ao ano anterior.
No entanto, o desempenho ficou abaixo das projeções iniciais da própria Abrasce, que estimava expansão de 1,6%, e também inferior ao crescimento observado em 2024, quando as vendas avançaram 1,9%, conforme dados divulgados pelo Estadão.
Bets e endividamento preocupam o setor
De acordo com Glauco Humai, o impacto das apostas online é mais significativo entre consumidores com menor renda disponível. “As bets estão tirando, sim, dinheiro do consumo e dos shoppings”, afirmou o executivo, reforçando que o endividamento combinado com o hábito de apostar reduz a capacidade de compra das famílias.
Segundo ele, pessoas que já enfrentam dificuldades financeiras e ainda destinam parte de sua renda às apostas acabam tendo menos recursos para consumir no varejo físico, o que afeta diretamente o desempenho das lojas instaladas nos shoppings.
Concorrência do comércio eletrônico
Além das apostas online, o comércio eletrônico segue como outro fator de pressão para o setor. Humai reconheceu que o comportamento do consumidor mudou nos últimos anos, com maior comodidade para adquirir produtos pela internet.
“Antes as pessoas pegavam o carro para ir ao shopping, mas hoje podem comprar certos itens pela internet”, destacou o presidente da Abrasce, apontando que os centros comerciais precisam se reinventar para manter o fluxo de visitantes.
Números do setor em 2025
Ao final de 2025, o Brasil contava com 658 shoppings em operação, distribuídos por 253 cidades. A área bruta locável (ABL) cresceu 0,9%, alcançando 18,3 milhões de metros quadrados.
O número total de lojas aumentou 1,2%, chegando a 124,7 mil estabelecimentos, enquanto o contingente de trabalhadores empregados nos shoppings subiu 0,9%, totalizando cerca de 1,082 milhão de pessoas.
Taxa de ocupação elevada
A taxa média de ocupação dos shoppings foi de 95,4%, índice considerado elevado pelo setor. Para Humai, esse número representa uma “vacância técnica”, já que uma ocupação total inviabilizaria a entrada de novas marcas e operações.
“Se o shopping estiver 100% ocupado, não cabem novas lojas, nem chegadas de marcas”, ponderou.
Expansão e maturação dos shoppings
Durante 2025, dez novos shoppings foram inaugurados no país. Para 2026, a Abrasce projeta a abertura de mais 11 empreendimentos. Segundo o presidente da entidade, muitos dos shoppings inaugurados nos últimos anos ainda estão em fase de maturação.
Desde 2020, 81 novos shoppings entraram em operação no Brasil. “Isso puxa a média de vendas do setor para baixo, mas tende a mudar quando eles amadurecerem”, explicou Humai.
Fatores econômicos e expectativas
Ao avaliar o desempenho de 2025, Humai destacou que os juros elevados ao longo do ano impactaram negativamente o apetite dos lojistas por expansão. “O crescimento poderia ter sido maior que 1,2%, mas o ano foi confuso. O juro foi muito alto”, avaliou.
Por outro lado, o aumento do emprego e da massa salarial ajudou a sustentar o nível de vendas, evitando um resultado ainda mais fraco para o setor.
Projeções para 2026
Apesar dos desafios, a Abrasce projeta crescimento de 1,4% no faturamento dos shoppings em 2026, o que levaria o setor a atingir R$ 203,7 bilhões em vendas. “Estamos animados, confiantes, mas com cautela para 2026”, afirmou Humai.
A entidade avalia que a possível isenção do imposto de renda para pessoas com renda mensal de até R$ 5 mil pode ter impacto positivo no consumo. Segundo Humai, a medida pode gerar uma sobra significativa no orçamento das famílias, beneficiando o varejo.
Copa do Mundo e riscos no horizonte
A Copa do Mundo também é vista como um fator favorável para os shoppings, especialmente pela possibilidade de atrair consumidores após o expediente de trabalho para assistir aos jogos e permanecer nos centros comerciais.
No entanto, o presidente da Abrasce alertou para riscos no cenário político e internacional. A proximidade das eleições no Brasil, segundo ele, gera instabilidade, enquanto tensões globais, especialmente envolvendo os Estados Unidos, aumentam a insegurança entre investidores e empresas.
O debate sobre os impactos das apostas online no consumo reforça a importância de discutir o crescimento do iGaming e seus efeitos na economia real, tema que deve ganhar ainda mais relevância nos próximos anos.
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