Operação Camarilha expõe fraude com rifas
A segunda fase da Operação Camarilha, deflagrada nesta sexta-feira (13) pelo Ministério Público de Minas Gerais (MPMG) em conjunto com a Polícia Civil, revelou um sofisticado esquema de fraudes financeiras envolvendo influenciadores digitais, empresários, um advogado e um contador. A organização criminosa atuava em ao menos cinco estados — Minas Gerais, Goiás, São Paulo, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul — além do Distrito Federal.
Três mandados de busca e apreensão foram cumpridos, incluindo um imóvel localizado em Goiânia (GO). Dez veículos foram apreendidos, mas até o momento não houve prisões.
Esquema nacional de títulos de capitalização
As investigações tiveram início em abril de 2023 e apontam que o grupo utilizava autorizações legítimas da Superintendência de Seguros Privados (Susep) para operar Títulos de Capitalização na modalidade filantrópica premiável. Contudo, a estrutura era usada como fachada para desviar a maior parte dos valores arrecadados.
Segundo as apurações, uma empresa de capitalização com sede em Porto Alegre (RS) obtinha a autorização legal para operar os títulos. Entretanto, somente 5% dos valores arrecadados eram destinados às instituições filantrópicas, como previsto pela regulamentação. O restante era dividido entre empresas e influenciadores envolvidos na fraude:
- 65% do valor ia para os influenciadores digitais de Araguari;
- 20% era destinado a uma empresa sediada em Praia Grande (SP);
- 5% apenas chegava à instituição beneficiária.
Além disso, a instituição de caridade participante era forçada a contratar os influenciadores e a empresa de Praia Grande como condição para estar no projeto.
Divulgação enganosa nas redes sociais
Três influenciadores digitais da cidade de Araguari (MG) são apontados como responsáveis pela divulgação enganosa dos títulos, promovendo-os como se fossem rifas beneficentes. Nas redes sociais, as campanhas anunciavam sorteios de carros e prêmios em dinheiro, alegando que parte dos valores seriam destinados a causas sociais.
O delegado Rodrigo Luis Fiorindo Faria explicou que, embora os sorteios tivessem autorização formal, as promessas veiculadas nas postagens configuravam fraude e crime contra a economia popular:
“Eles tinham autorização para fazer esses sorteios de carros e dinheiro em espécie, porém, a forma como anunciavam e prometiam aos compradores é o que configurou a fraude e enganou milhões de brasileiros.”
Esquema movimentou R$ 15 milhões
De setembro de 2023 a abril de 2025, a fraude teria movimentado aproximadamente R$ 15 milhões. Os valores obtidos através dos títulos supostamente filantrópicos eram desviados por meio de empresas de fachada e contas vinculadas aos envolvidos.
A amplitude da fraude chamou a atenção da CPI das Bets no Senado Federal, que incluiu o caso como um dos pontos principais da investigação. A comissão é presidida pelo senador Hiran Gonçalves e conta com a relatoria da senadora Soraya Thronicke.
Crimes apurados e ramificações
Os crimes investigados incluem:
- Estelionato
- Lavagem de dinheiro
- Organização criminosa
- Contravenção penal relacionada a jogos de azar
- Crime contra a economia popular
- Exploração irregular de apostas e “bets”
A atuação da quadrilha se estendia por diversas cidades, como:
- Araguari (MG)
- Brasília (DF)
- Praia Grande (SP)
- Rio de Janeiro (RJ)
- Porto Alegre (RS)
Impacto nas apostas e regulamentações
O caso reforça os desafios regulatórios em torno das apostas e sorteios no país. Apesar de avanços como a regulamentação das apostas esportivas, ainda há lacunas que permitem a atuação de esquemas fraudulentos com aparência de legalidade.
Com a repercussão do caso e sua inclusão na pauta da CPI das Bets, espera-se maior rigor na fiscalização e na exigência de transparência nas operações com títulos de capitalização e rifas.

