PL amplia tributação sobre bets e fintechs

O PL 5.473/2025 propõe aumentar a carga tributária sobre bets, fintechs e instituições financeiras para compensar a ampliação da isenção do IRPF. Especialistas alertam para riscos de instabilidade e desequilíbrio no sistema tributário.

-
às

- Continua Depois do Anúncio -

Tributação sobre bets e fintechs avança como compensação fiscal

O avanço do Projeto de Lei nº 5.473/2025 no Senado Federal reacendeu o debate sobre os rumos da política tributária brasileira. A proposta surge em um contexto simbólico: ao mesmo tempo em que amplia a faixa de isenção do Imposto de Renda da Pessoa Física (IRPF) para rendimentos mensais de até R$ 5.000, o governo busca compensar a renúncia fiscal por meio do aumento da carga tributária sobre setores considerados altamente lucrativos, como fintechs, instituições financeiras e empresas de apostas de quota fixa, conhecidas como bets.

Aprovado na Comissão de Assuntos Econômicos (CAE), o texto final do PL foi apresentado em 2 de dezembro e classificado pelo parecer da comissão como um “complemento” necessário à política de desoneração da renda do trabalho. A escolha política é clara: aliviar a tributação sobre contribuintes de menor renda e redistribuir o ônus fiscal entre segmentos com maior capacidade contributiva.

Capacidade contributiva e escolhas políticas

À primeira vista, a lógica adotada pelo legislador parece alinhada ao princípio constitucional da capacidade contributiva. No entanto, a análise não pode se limitar à leitura isolada do projeto. É fundamental compreender o sistema tributário como um todo e os efeitos estruturais que alterações pontuais podem provocar.

Ao direcionar o aumento da carga tributária para setores específicos, o PL 5.473/2025 reforça uma prática recorrente no Brasil: a utilização de segmentos economicamente dinâmicos como fonte imediata de recomposição de receitas, especialmente em momentos de pressão fiscal.

Redesenho da CSLL para fintechs e bancos

No caso das fintechs e instituições financeiras, o projeto promove alterações relevantes na Contribuição Social sobre o Lucro Líquido (CSLL). A proposta intensifica a lógica de alíquotas diferenciadas por setor, inaugurada pela Lei nº 7.689/1988 e posteriormente validada pelo Supremo Tribunal Federal, que reconheceu a constitucionalidade da majoração da CSLL para bancos e seguradoras.

O PL prevê, em determinados casos, a elevação da alíquota de 9% para 15%. Do ponto de vista estritamente constitucional, é pouco provável que essa majoração seja considerada inválida, uma vez que o STF já admitiu tratamento tributário mais oneroso ao setor financeiro, em razão de sua maior capacidade econômica e de sua função sistêmica.

Riscos à racionalidade do sistema

O principal ponto de crítica, contudo, não reside na validade formal da medida, mas em sua racionalidade material. Ao elevar novamente a tributação específica do setor financeiro, o legislador aprofunda desequilíbrios competitivos entre bancos tradicionais, fintechs reguladas como instituições de pagamento e outros atores do ecossistema financeiro digital.

Em vez de promover neutralidade e previsibilidade regulatória, o modelo adotado cria um ambiente instável, no qual a inovação tecnológica convive com a constante ameaça de novas exações setoriais. A mensagem implícita é preocupante: quanto mais bem-sucedido e dinâmico o setor, maior a probabilidade de ser transformado em reserva arrecadatória.

Apostas de quota fixa no centro da arrecadação

No segmento de apostas esportivas, o PL 5.473/2025 amplia a participação estatal na arrecadação líquida das apostas de quota fixa. Parte relevante dos recursos será destinada a políticas públicas de saúde e, de forma transitória, à compensação de perdas de arrecadação de estados e municípios decorrentes das mudanças introduzidas pela Emenda Constitucional nº 132/2023.

Sob a ótica da competência tributária e da exploração de loterias pela União, não há ilegalidade evidente. Ainda assim, a medida suscita questionamentos importantes no campo da política pública.

Volatilidade e impacto social das receitas das bets

A utilização de receitas oriundas do jogo para financiar políticas estruturais levanta dúvidas sobre sustentabilidade e justiça social. As apostas são reconhecidamente marcadas por alta volatilidade e por impactos regressivos, afetando de forma mais intensa parcelas vulneráveis da população.

A pergunta central é se faz sentido sustentar a seguridade social e a engenharia federativa com base em uma fonte de arrecadação instável e socialmente sensível, especialmente em um país que busca reduzir desigualdades estruturais.

Pert-Baixa Renda e a lógica dos parcelamentos

Outro ponto relevante do projeto é a criação do Programa de Regularização Tributária para a Baixa Renda (Pert-Baixa Renda). A iniciativa replica a lógica dos tradicionais programas de parcelamento fiscal, conhecidos como Refis, agora sob uma roupagem social.

É inegável que contribuintes de baixa renda merecem tratamento diferenciado na recuperação de créditos tributários. No entanto, a experiência brasileira com programas de regularização fiscal recomenda cautela.

Histórico de resultados frustrantes

Desde a criação do primeiro Refis, o Brasil já instituiu cerca de quarenta programas de parcelamento especial. Relatórios da Receita Federal indicam que essas iniciativas falharam de forma reiterada em reduzir o estoque da dívida ativa.

Além disso, a repetição quase ritual desses programas corrói princípios fundamentais como a isonomia e a moralidade tributária. Contribuintes adimplentes acabam penalizados ao observar, ciclicamente, condições vantajosas concedidas àqueles que atrasam ou deixam de pagar seus tributos.

Arranjo conjuntural e falta de coerência

O que se desenha com o PL 5.473/2025 não é uma política tributária estruturalmente coerente, mas um arranjo conjuntural de compensações. Desonera-se a renda do trabalho, onera-se o setor financeiro, amplia-se a arrecadação sobre as bets e, para mitigar impactos sociais, cria-se um novo programa de regularização fiscal.

Esse tipo de solução atende a urgências imediatas de caixa, mas compromete a estabilidade e a previsibilidade do sistema tributário no longo prazo.

Desafios para o futuro do sistema tributário

O sistema tributário brasileiro foi concebido como instrumento de transformação social e redução das desigualdades. Quando a tributação passa a ser organizada de forma fragmentada, conforme pressões políticas momentâneas, o resultado é um modelo errático e instável.

Se o Congresso Nacional pretende honrar o espírito da Constituição, será necessário ir além da simples engenharia de alíquotas. É fundamental discutir qual modelo de tributação se deseja para o setor financeiro, para a economia digital e para atividades de risco social, como as apostas.

Conclusão

Aumentar a carga tributária sobre bancos, fintechs e bets pode até fechar a conta no curto prazo. No entanto, um sistema construído a partir de improvisos arrecadatórios dificilmente será capaz de sustentar a complexidade da economia brasileira no futuro.

Sem uma visão estrutural e de longo prazo, a política tributária corre o risco de se tornar apenas uma resposta emergencial às necessidades fiscais, afastando-se de seu papel central na promoção da estabilidade econômica e da justiça social.

Fonte: BNL Data | Artigo originalmente publicado no Consultor Jurídico (ConJur)
Autores: Júlio César Soares e Gabriela Barbosa

MAIS NOTÍCIAS DESTE AUTOR

Lenda tribal Ernie Stevens Jr é homenageado nos EUA

O líder dos jogos tribais americanos, Ernie Stevens Jr., faleceu aos 66 anos, deixando um legado transformador na Indian Gaming Association e na soberania tribal. Sua liderança moldou o crescimento do setor e inspirou gerações de comunidades nativas.

MAIS NOTÍCIAS

Prohards passa por PoC para operar loteria estadual do MS

A Prohards enfrenta prova de conceito para operar o software da loteria Lotesul no Mato Grosso do Sul, após desclassificação da líder Lottopro. Contrato prevê repasse de R$ 18,5 milhões e duração de 20 anos.
Amábile Silva
Amábile Silvahttps://conexaobet.com/
Estudante e aspirante a escritora, apaixonada por literatura e filosofia.

DEIXE UM COMENTÁRIO

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui
Captcha verification failed!
Falha na pontuação do usuário captcha. Por favor, entre em contato conosco!

CATEGORIAS POPULARES