A ilusão de ser bom em apostas
O crescimento das apostas esportivas e dos jogos online no Brasil vem movimentando cifras bilionárias, mas também gera preocupações entre especialistas, famílias e autoridades. Embora muitos defendam o caráter de entretenimento dessas plataformas, a percepção de que é possível obter lucros consistentes e expressivos tem criado um ambiente de risco financeiro e emocional para milhares de pessoas.
Um dos reflexos dessa distorção é a popularização de cursos que prometem “métodos infalíveis” para apostar. Essa narrativa contribui para alimentar a ilusão de que existe uma fórmula mágica capaz de transformar apostas em uma fonte confiável de renda, algo distante da realidade.
O ciclo do autoengano
Um comportamento recorrente entre apostadores ilustra como a mente humana pode ser enganada: se o indivíduo ganha logo na primeira aposta do dia, tende a parar, preservando o lucro. Mas se perde, continua apostando para recuperar o prejuízo. Essa prática leva a uma situação enganosa: em mais da metade dos dias o apostador se sente vitorioso, mas os dias de derrota costumam acumular perdas maiores que os ganhos anteriores. O resultado final é negativo, mesmo com uma alta frequência de “dias vencedores”.
Esse falso sentimento de competência se apoia em um viés cognitivo que reforça a crença de habilidade especial, mesmo quando os prejuízos financeiros se acumulam com o tempo.
Paralelo com o day trade
Em uma pesquisa acadêmica recente, o economista Bruno Giovannetti, professor da FGV EESP, analisou o comportamento de 39.744 day traders brasileiros entre 2012 e 2018. O estudo mostrou que esses investidores apresentavam lucro em 53% dos dias de operação, mas, ao final do período, acumularam perdas superiores a R$ 300 milhões.
Assim como nas apostas esportivas, os traders interrompiam as operações quando tinham ganhos e continuavam quando acumulavam prejuízos, em busca da reversão das perdas. O padrão reforça a ilusão de habilidade: uma alta taxa de dias lucrativos, porém acompanhada de prejuízos financeiros crescentes.
Outro achado relevante foi que a decisão de abandonar a atividade dependia quase exclusivamente da proporção de dias “vencedores”, ignorando completamente o saldo acumulado. Ou seja, mesmo após perdas significativas, muitos continuavam acreditando em sua própria competência.
O mecanismo psicológico
Tanto nas apostas quanto no day trading, a ilusão de competência nasce da tendência humana de valorizar métricas superficiais – como o número de dias positivos – em detrimento da realidade financeira. Essa distorção cognitiva gera um ciclo vicioso de persistência em atividades que resultam em prejuízo financeiro e desgaste emocional.
Necessidade de educação e regulação
Diante desse cenário, especialistas defendem um esforço coletivo de educação financeira, regulação responsável e conscientização crítica. A proposta não é demonizar o entretenimento, mas oferecer ferramentas cognitivas e informacionais para que a população compreenda os riscos e consiga distinguir entre ilusão e realidade.
Para Giovannetti, compreender os mecanismos psicológicos que sustentam o autoengano é o primeiro passo para reduzir os prejuízos financeiros e emocionais que impactam milhões de brasileiros. O fortalecimento de políticas de jogo responsável também é considerado essencial nesse processo.
Fonte: BNLData – bnldata.com.br

