Entidades contestam números da CNC sobre apostas no Brasil
A recente divulgação de dados pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) reacendeu o debate sobre o impacto das apostas online na economia brasileira. Segundo a entidade, os gastos com bets teriam crescido de forma acelerada nos últimos anos, chegando a ultrapassar R$ 30 bilhões mensais em março de 2026.
No entanto, representantes do setor de iGaming e associações ligadas às apostas contestaram fortemente os números apresentados, classificando-os como inconsistentes em relação aos dados oficiais do governo.
Divergência entre estimativas e dados oficiais
De acordo com a CNC, o crescimento das apostas teria provocado um “efeito substituição” no orçamento das famílias, impactando o consumo de bens essenciais. A entidade também relaciona o avanço do setor ao aumento da inadimplência.
Entretanto, dados divulgados pelo governo federal mostram um cenário diferente. A arrecadação do setor em março de 2026 foi de aproximadamente R$ 859 milhões, valor correspondente à tributação sobre a receita bruta das operadoras.
Considerando que essa arrecadação representa cerca de 12% do GGR (Gross Gaming Revenue), estima-se que a receita total das empresas tenha girado em torno de R$ 7,15 bilhões — número significativamente inferior ao apontado pela CNC.
Mais informações sobre o setor podem ser consultadas no portal oficial da Secretaria de Prêmios e Apostas.
Setor questiona metodologia utilizada
Outro ponto levantado por especialistas é a ausência de distinção entre valores apostados e valores efetivamente perdidos pelos usuários. No modelo de apostas, grande parte do dinheiro retorna aos jogadores na forma de prêmios, o que reduz significativamente o impacto líquido sobre a renda.
Além disso, representantes do setor destacam que o mercado de apostas já existia antes da regulamentação recente, o que compromete comparações baseadas em períodos limitados.
Dados de consumo mostram cenário diferente
Levantamentos independentes indicam que os gastos com apostas representam uma parcela relativamente pequena do orçamento das famílias brasileiras. Segundo dados da Pay4Fun, cerca de 28 milhões de pessoas participaram de apostas em 2025.
Entre esses usuários, mais da metade (53,3%) gastou até R$ 50 mensais. Já aqueles com despesas superiores a R$ 1 mil representam menos de um quinto do total.
Estudo da LCA Consultoria reforça essa visão, apontando que as apostas correspondem a aproximadamente 0,46% do consumo das famílias, com gasto médio mensal de R$ 122 por apostador.
Distribuição de gastos entre apostadores
| Faixa de gasto mensal | Percentual de usuários |
|---|---|
| Até R$ 50 | 53,3% |
| Acima de R$ 1.000 | 19,5% |
IBJR aponta inconsistências nos dados
O Instituto Brasileiro de Jogo Responsável (IBJR) divulgou nota afirmando que os números apresentados pela CNC não estão alinhados com os dados oficiais do mercado regulado.
Segundo a entidade, o GGR total das operadoras em 2025 foi de aproximadamente R$ 37 bilhões. Esse valor já considera o desconto dos prêmios pagos aos jogadores, sendo considerado o indicador mais fiel da receita do setor.
Com base nesses dados, estimativas que apontam cifras muito superiores seriam incompatíveis com a realidade observada.
ANJL reforça caráter multifatorial do endividamento
A Associação Nacional de Jogos e Loterias (ANJL) também se posicionou contra as conclusões da CNC. Para a entidade, o endividamento das famílias brasileiras é resultado de fatores estruturais mais amplos.
Entre os principais elementos citados estão o alto custo do crédito, as taxas elevadas de juros e o aumento do custo de vida, que pressionam o orçamento das famílias.
A ANJL destacou ainda que análises baseadas em recortes específicos não devem ser utilizadas para estabelecer relações diretas de causa e efeito sem considerar o contexto completo.
Debate sobre regulamentação segue em pauta
Apesar das divergências, há consenso sobre a importância da regulamentação do setor. Especialistas defendem medidas que garantam transparência, controle e proteção ao consumidor.
O próprio economista-chefe da CNC reconheceu que a atividade não deve ser proibida, mas regulada de forma adequada para evitar excessos.
Saiba mais sobre o tema em nossa seção de legislação.
Perspectivas para o mercado
O setor de apostas online segue em expansão no Brasil, impulsionado pela regulamentação e pelo interesse crescente dos consumidores. Ao mesmo tempo, o debate sobre seus impactos econômicos e sociais tende a continuar nos próximos anos.
A análise de dados confiáveis e o alinhamento entre órgãos públicos e entidades do setor serão fundamentais para garantir um ambiente equilibrado e sustentável.
Mais detalhes sobre o mercado podem ser acompanhados em portais especializados como o iGaming Business.
Fonte: iGB Brasil e Autor: Gildo Mazza

