Um relatório da Fincord Intelligence alerta para o avanço de redes internacionais de apostas ilegais no Reino Unido, com foco em consumidores que optaram pela autoexclusão ou buscam evitar as restrições do mercado regulamentado. O estudo estima que o mercado global de apostas online ilegais tenha gerado cerca de US$ 50 bilhões em receita bruta em 2025.
Segundo o relatório, os operadores clandestinos utilizam uma combinação de redes sociais, mecanismos de busca, afiliados, influenciadores e plataformas de mensagens como Telegram e WhatsApp para alcançar consumidores. Entre os públicos identificados estão usuários que recorreram ao GAMSTOP, sistema britânico de autoexclusão.
Redes de apostas ilegais usam canais digitais
A Fincord Intelligence estima que aproximadamente 5 mil estruturas de operadores ilegais tenham administrado mais de 15 mil sites e aplicativos durante 2025. O levantamento aponta ainda o uso de domínios espelho, redes privadas virtuais (VPNs) e aplicativos baseados em navegador para restabelecer rapidamente o acesso a serviços bloqueados.
O relatório cita também os chamados sites “Non-GAMSTOP”, promovidos a consumidores que se autoexcluíram do sistema britânico. Essas plataformas, segundo o estudo, podem anunciar a ausência ou redução de controles de identidade, verificações financeiras e limites de apostas.
Esse modelo cria um problema adicional para as políticas de proteção ao consumidor, uma vez que a decisão de restringir o próprio acesso ao jogo pode não impedir a exposição a ofertas de operadores que atuam fora do sistema regulamentado.
O tema também se relaciona diretamente ao jogo responsável, especialmente no que diz respeito à efetividade de mecanismos de autoexclusão e à proteção de pessoas consideradas vulneráveis.
Consumidores autoexcluídos estão entre os alvos
Grainne Hurst, diretora executiva do Betting and Gaming Council (BGC), afirmou que o problema ultrapassa uma questão exclusivamente regulatória.
“Este relatório demonstra que o jogo ilegal deixou de ser apenas uma questão regulatória.”
Segundo a executiva, os operadores clandestinos direcionam suas ações a consumidores vulneráveis no Reino Unido, inclusive pessoas que optaram pela autoexclusão.
“Operadores ilegais estão visando deliberadamente clientes vulneráveis no Reino Unido, incluindo pessoas que se autoexcluíram, usando mídias sociais, afiliados e plataformas de mensagens para evitar as proteções do mercado regulamentado.”
O relatório aponta que os operadores conseguem contornar parte das barreiras aplicadas ao mercado licenciado ao utilizar diferentes empresas, domínios, canais de marketing e estruturas de pagamento.
Bônus maiores são usados para atrair usuários
De acordo com a Fincord, uma das formas de competição utilizadas pelo mercado ilegal é a oferta de condições comerciais mais agressivas do que aquelas geralmente disponíveis entre operadores regulamentados.
Entre os exemplos citados estão bônus equivalentes a 300% a 500% dos depósitos. O relatório também menciona retornos anunciados mais altos e pagamentos mais rápidos como elementos utilizados para atrair consumidores.
Essas condições podem representar um diferencial comercial para plataformas que não estão submetidas às mesmas exigências de proteção ao consumidor. A ausência ou redução de determinados controles, porém, também é apontada como um dos fatores que aumentam os riscos associados ao mercado clandestino.
O levantamento relaciona ainda a expansão dessas operações ao uso de estruturas internacionais e ferramentas digitais que dificultam a identificação dos responsáveis e a interrupção dos serviços.
Criptomoedas ganham espaço no mercado clandestino
As criptomoedas aparecem como outro componente relevante na estrutura financeira descrita pelo relatório. A Fincord estima que aproximadamente 35% dos pagamentos no setor ilegal já sejam realizados com criptoativos.
Segundo a projeção apresentada no estudo, essa participação poderia superar 70% até 2030. A estimativa é apresentada como uma projeção do relatório, e não como um dado consolidado sobre o comportamento futuro do mercado.
O uso de diferentes intermediários financeiros, serviços de criptomoedas e estruturas digitais levou a Fincord a defender uma abordagem que ultrapasse o simples bloqueio de sites individuais.
O relatório recomenda medidas contra provedores de pagamento, intermediários de criptomoedas, afiliados, anunciantes, fornecedores de software e empresas responsáveis por infraestrutura de hospedagem.
Operação SOGA X expôs dimensão internacional
O relatório também cita a Operação SOGA X, conduzida pela INTERPOL durante a Euro 2024, como exemplo da dimensão internacional das redes associadas às apostas ilegais. A operação contou com a participação de autoridades de 28 países e territórios.
Segundo a Fincord, a operação identificou redes ligadas a mais de US$ 5,1 bilhões em lucros ilícitos e transações relacionadas. A informação deve ser atribuída ao relatório, já que a comunicação oficial da INTERPOL sobre a SOGA X registra mais de 5.100 prisões e a recuperação de mais de US$ 59 milhões em recursos ilícitos, além do fechamento de dezenas de milhares de sites ilegais.
A INTERPOL também relacionou as investigações a crimes como lavagem de dinheiro, tráfico de pessoas e manipulação de resultados esportivos. Em um dos casos descritos pela organização, autoridades nas Filipinas resgataram mais de 650 vítimas de tráfico de pessoas durante as ações associadas à operação.
A dimensão transnacional da SOGA X reforça a dificuldade de combater operações que utilizam diferentes jurisdições, meios de pagamento e plataformas digitais para manter suas atividades.
BGC pede ação contra toda a cadeia ilegal
Para Grainne Hurst, a resposta das autoridades precisa envolver diferentes setores, em vez de se concentrar apenas no bloqueio de páginas individuais.
“O governo deve intensificar seus esforços para coordenar as forças policiais, os órgãos reguladores, os provedores de pagamento e as empresas de tecnologia para atingir as redes que dão suporte a essas operadoras, e não apenas sites individuais.”
A recomendação está alinhada à avaliação da Fincord de que o mercado ilegal funciona por meio de uma estrutura integrada de empresas, serviços financeiros, tecnologia e promoção digital.
O combate às apostas esportivas clandestinas, portanto, envolve não apenas a identificação dos sites que oferecem os serviços, mas também o rastreamento das estruturas que permitem sua divulgação, processamento de pagamentos e manutenção técnica.
Mercado ilegal desafia mecanismos de proteção
O levantamento coloca a proteção de consumidores autoexcluídos entre os principais desafios enfrentados pelo mercado regulamentado britânico. A possibilidade de alcançar esse público por meio de plataformas digitais demonstra como a existência de mecanismos formais de autoexclusão não impede, por si só, a exposição a ofertas clandestinas.
O relatório defende, por isso, uma estratégia coordenada entre autoridades públicas, empresas de tecnologia, instituições financeiras, reguladores e demais participantes da cadeia digital.
Ao mesmo tempo, os números apresentados pela Fincord devem ser interpretados como estimativas do estudo. O valor de US$ 50 bilhões corresponde à receita bruta global estimada para o mercado ilegal online em 2025 e não representa, especificamente, o tamanho do mercado clandestino britânico.
A discussão reforça a importância de diferenciar o mercado regulado das operações clandestinas e de ampliar os mecanismos capazes de impedir que consumidores que buscaram limitar seu acesso ao jogo sejam novamente alcançados por operadores não autorizados.
Fonte: iGaming Brazil | Autor: Luiz Vinicius

