Clubes das Séries A e B do Campeonato Brasileiro negociam com o Governo Federal uma alternativa para enfrentar o endividamento das equipes, com uma linha de crédito do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) entre as possibilidades discutidas. As tratativas, que já estavam em andamento, ganharam novo contexto após a publicação da Medida Provisória nº 1.394/2026, que proibiu a exploração, a oferta, a intermediação e a publicidade de apostas de quota fixa no Brasil.
A Confederação Brasileira de Futebol (CBF) participa das conversas como articuladora, sem previsão de assumir o financiamento. Segundo reportagens sobre as negociações, Corinthians e Internacional estão entre os principais clubes envolvidos na construção da proposta.
Crédito do BNDES seria destinado a dívidas
A principal alternativa discutida prevê que os clubes tenham acesso a uma linha de crédito do BNDES com condições mais favoráveis do que as normalmente praticadas pelo mercado bancário. O dinheiro seria destinado prioritariamente ao pagamento ou à renegociação de dívidas.
O modelo em discussão seria diferente de programas de recuperação fiscal anteriores, porque não ficaria restrito a débitos tributários. Também existe a possibilidade de que clubes com menor nível de endividamento utilizem recursos para projetos de infraestrutura, como construção ou melhoria de centros de treinamento.
Ainda não foram definidos o valor total que poderia ser disponibilizado pelo banco, os critérios de elegibilidade ou as condições definitivas dos financiamentos. Portanto, não há neste momento um programa de crédito do BNDES formalmente anunciado para os clubes nos termos discutidos nas tratativas.
Corinthians e Internacional lideram articulação
As conversas são conduzidas principalmente por Corinthians e Internacional, que atravessam dificuldades financeiras e estão sob transfer bans impostos pela Fifa. Os presidentes Osmar Stábile, do clube paulista, e Alessandro Barcellos, do Internacional, buscaram apoio de Pedro Daniel, atual CEO do Atlético-MG.
Daniel ocupava anteriormente o cargo de diretor executivo da EY. Um estudo produzido pela consultoria foi utilizado como base para as discussões com o Ministério do Esporte e a CBF, segundo as reportagens que detalharam a negociação.
As tratativas começaram antes da publicação da MP que proibiu as bets e envolvem a busca por uma solução para o endividamento dos clubes. Com a mudança regulatória, porém, a questão das receitas provenientes do mercado de apostas passou a fazer parte ainda mais diretamente do debate financeiro das equipes.
Proibição das bets muda cenário para os clubes
A Medida Provisória nº 1.394, publicada em 25 de setembro, estabeleceu a proibição da exploração, oferta, intermediação e publicidade de loterias de apostas de quota fixa no território nacional. O texto também alcança apostas esportivas sobre eventos reais e jogos online.
A medida determina ainda a extinção das autorizações concedidas anteriormente sob o regime da Lei nº 14.790 e estabelece prazos para a interrupção das atividades. Segundo o cronograma divulgado pelo Governo Federal, os sites e aplicativos de apostas devem sair do ar a partir de 6 de outubro, enquanto materiais publicitários e de patrocínio existentes têm prazo para retirada até 5 de outubro.
A mudança afeta diretamente o modelo de negócios construído entre clubes e empresas de apostas nos últimos anos. Na época em que as negociações de crédito foram noticiadas, estimativas citadas pelas reportagens apontavam que as bets destinavam mais de R$ 1 bilhão por ano a contratos de patrocínio com clubes da Série A.
Esse valor é uma estimativa atribuída ao setor e não representa uma cifra oficial do Governo Federal ou da CBF. O impacto efetivo da MP sobre cada clube também depende dos contratos individuais e de eventuais medidas judiciais, legislativas ou negociações posteriores.
Fair Play Financeiro entra no argumento
O Sistema de Sustentabilidade Financeira da CBF, conhecido como Fair Play Financeiro, também é utilizado como argumento nas discussões. O modelo começou a ser implementado em 2026 e estabelece mecanismos relacionados ao controle de dívidas, equilíbrio operacional, custos com elenco e endividamento de curto prazo.
De acordo com a CBF, o sistema foi criado para aumentar a transparência e fazer com que os clubes operem dentro de suas condições financeiras. A Agência Nacional de Regulação e Sustentabilidade do Futebol (ANRESF) é responsável pelo monitoramento, fiscalização e julgamento das operações dentro do modelo.
Nas negociações, os clubes argumentam que a existência dessas regras de governança e controle financeiro diferencia o cenário atual de períodos anteriores em que equipes buscaram medidas de auxílio. Trata-se, contudo, de uma argumentação apresentada pelos envolvidos nas tratativas, e não de uma decisão oficial sobre a criação do crédito.
CBF acompanha tratativas com o Governo
A CBF participa das discussões como articuladora, enquanto o Ministério do Esporte também demonstrou interesse na construção de uma solução para o endividamento dos clubes, segundo as informações divulgadas sobre as negociações.
O calendário eleitoral também aparece como fator para o ritmo das conversas. Reportagens publicadas antes da publicação da MP indicavam que a expectativa era de avanço da discussão somente depois das eleições. O segundo turno das eleições de 2026 está marcado pelo Tribunal Superior Eleitoral para 25 de outubro.
Até o momento, não há anúncio oficial de uma linha de crédito do BNDES específica para clubes de futebol com valores, critérios e condições definidos. A proposta permanece em fase de discussão entre os envolvidos.
Manifesto de clubes defendeu mercado regulado
Antes da publicação da MP 1.394, clubes e federações haviam divulgado um manifesto em defesa da manutenção do mercado regulado de apostas. O documento, intitulado “O fim do futebol brasileiro”, foi publicado em 17 de setembro, quando ainda havia apenas a possibilidade de novas restrições ao setor.
As entidades afirmaram que as empresas de apostas autorizadas haviam se tornado uma fonte relevante de receita para o futebol e defenderam o combate às plataformas clandestinas por meio de fiscalização e mecanismos de proteção.
O manifesto também sustentou que uma mudança abrupta poderia afetar contratos, planejamento financeiro e estruturas dos clubes. Entre os trechos divulgados estava a afirmação de que “o torcedor não pode pagar essa conta” e que, sem o mercado regulado, “o futebol é quem acaba”. Essas são posições expressas pelos clubes e federações signatários do documento.
O cenário, entretanto, mudou poucos dias depois. A publicação da MP 1.394 transformou a possibilidade de restrições em uma medida provisória com força de lei, embora ainda sujeita à tramitação no Congresso Nacional.
Próximos passos ainda dependem de decisões
A criação de uma eventual linha de crédito terá de avançar em paralelo a outras discussões sobre o futuro do mercado de apostas e as consequências financeiras para o futebol. Entre os pontos ainda sem definição estão o volume de recursos, os critérios de acesso, as garantias exigidas e a destinação final do financiamento.
A MP também permanece em tramitação no Congresso. O texto entrou em vigor na data de sua publicação, mas sua continuidade depende do processo legislativo previsto para medidas provisórias. Paralelamente, entidades do setor de apostas questionaram a medida no Supremo Tribunal Federal.
Para acompanhar as mudanças que afetam o setor, o ConexãoBet acompanha a legislação das bets e seus impactos sobre operadores, empresas e demais agentes do mercado.
A relação entre clubes e casas de apostas também passou a ser diretamente afetada pelas novas regras de publicidade e patrocínio. A cobertura de apostas esportivas reúne informações sobre esse mercado e suas transformações.
O tema ainda se conecta ao cenário mais amplo do iGaming no Brasil, especialmente diante das mudanças introduzidas pela MP e das discussões sobre o futuro das apostas e dos jogos online no país.
Fonte: iGaming Brazil | Autor: Luiz Vinicius

