Integrantes da campanha de reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) passaram a avaliar que a proibição das bets pode ter contribuído para o desempenho abaixo do esperado no primeiro turno das eleições presidenciais. A percepção surgiu após o resultado das urnas e contrasta com a avaliação predominante antes da votação, quando a medida era vista como potencialmente favorável ao candidato.
Segundo apuração divulgada por veículos que repercutiram reportagem de O Globo, o monitoramento das redes sociais realizado pela campanha identificou influenciadores voltados principalmente ao público de classe C defendendo o voto útil em Flávio Bolsonaro (PL) como reação ao fim das apostas online. A avaliação, porém, representa uma leitura interna da campanha e não comprova que a medida tenha causado o resultado eleitoral.
Resultado do primeiro turno mudou avaliação
Flávio Bolsonaro terminou o primeiro turno na liderança, com 47,03% dos votos válidos, enquanto Lula registrou 45,16%. A diferença de 1,87 ponto percentual levou integrantes da campanha petista a reavaliar algumas das decisões adotadas na reta final da disputa.
Antes da votação, a expectativa dentro da campanha era diferente. Levantamentos de opinião e monitoramentos de comportamento digital indicavam que o combate às apostas tinha potencial para ser bem recebido por parcela relevante do eleitorado.
Uma pesquisa PoderData/Aya divulgada em 3 de outubro, na véspera da eleição, mostrou que 43% dos entrevistados acreditavam que a proibição das bets favorecia a campanha de Lula. Outros 31% avaliavam que a medida prejudicava o candidato, enquanto 26% não souberam responder. O levantamento ouviu 4.000 pessoas entre 30 de setembro e 2 de outubro, com margem de erro de 1,5 ponto percentual.
O mesmo estudo indicou que 52% dos entrevistados aprovavam a proibição das bets, enquanto 31% eram contrários e 18% não souberam responder. Os números mostram que a medida tinha apoio majoritário na pesquisa, embora também existisse uma parcela relevante do eleitorado que avaliava impacto negativo sobre a candidatura de Lula.
Redes sociais entraram no radar da campanha
O monitoramento citado na apuração apontou manifestações de influenciadores associando o apoio a Flávio Bolsonaro à reação contra o fim das apostas online. Segundo essa avaliação, o tema teria mobilizado especialmente grupos que utilizavam as plataformas.
A campanha passou a considerar que a discussão sobre as bets não produziu apenas os efeitos positivos inicialmente esperados. A decisão também teria criado uma frente de reação entre eleitores diretamente afetados pela interrupção do mercado regulado.
O papel das redes sociais ganhou importância porque a decisão foi anunciada apenas nove dias antes do primeiro turno. A proximidade entre a publicação da Medida Provisória nº 1.394/2026 e a votação reduziu o intervalo para que o governo explicasse os efeitos da mudança e para que os diferentes grupos políticos reagissem à medida.
O tema também ganhou espaço na cobertura eleitoral e passou a integrar o debate sobre os efeitos econômicos, sociais e regulatórios da decisão.
Campanha teme impacto com bloqueio das plataformas
A preocupação agora está voltada para a retirada efetiva das plataformas do ar. Conforme o cronograma oficial do governo, os sites e aplicativos de apostas de quota fixa devem ficar indisponíveis a partir de 6 de outubro.
O momento é particularmente sensível porque a campanha presidencial entra no segundo turno, marcado para 25 de outubro. A equipe de Lula avalia que a reação poderá aumentar quando os usuários deixarem de ter acesso às plataformas para realizar novas operações.
O cronograma também prevê a restituição dos valores mantidos nas contas dos apostadores. Até 5 de outubro, os usuários tiveram prazo para solicitar voluntariamente a retirada dos saldos. Depois disso, as plataformas devem comunicar os valores remanescentes às instituições financeiras, que serão responsáveis pelo processo de devolução.
As mudanças fazem parte da nova fase regulatória das apostas no Brasil, estabelecida pela MP nº 1.394/2026.
Proibição não era consenso no entorno de Lula
A decisão de encerrar o mercado regulado de apostas de quota fixa também teria provocado divergências dentro do grupo político do presidente. Segundo apurações citadas na reportagem, havia integrantes que defendiam alternativas à interrupção imediata da atividade.
Entre as possibilidades discutidas estava a adoção de um período de transição antes da proibição completa. A avaliação era de que uma mudança gradual poderia reduzir impactos sobre empresas, clubes esportivos, trabalhadores e outros segmentos relacionados ao mercado regulado.
De acordo com a apuração citada, a estratégia eleitoral teve peso relevante na definição do formato final da medida. A Secretaria de Comunicação Social e outros integrantes do entorno presidencial participaram das discussões sobre a conveniência política do anúncio antes do primeiro turno.
O Ministério da Fazenda, por sua vez, acompanhava os efeitos da atividade sobre as contas públicas. Dados da Receita Federal divulgados antes da edição da MP apontavam arrecadação de R$ 9,91 bilhões com apostas e jogos entre janeiro e agosto de 2026. O valor inclui a tributação do setor e das loterias da Caixa, não representando exclusivamente a arrecadação das bets.
Mercado de apostas passa a integrar disputa do segundo turno
A proibição das bets agora passa a ser acompanhada também pelo impacto político de sua implementação. O tema reúne questões relacionadas a arrecadação, empregos, publicidade, patrocínios esportivos, proteção dos consumidores e combate ao mercado ilegal.
Ao mesmo tempo, a medida ainda está sujeita à tramitação no Congresso Nacional e a questionamentos judiciais. Por isso, o cenário regulatório pode sofrer alterações durante o segundo turno e posteriormente.
Para o eleitor, a questão das apostas também pode ser influenciada pela percepção sobre os efeitos concretos da retirada das plataformas. A disponibilidade de informações sobre restituição de saldos, fiscalização do mercado ilegal e consequências econômicas pode ganhar espaço no debate político nas próximas semanas.
O mercado de apostas esportivas já vinha ocupando espaço crescente no debate público antes da MP, mas a proximidade entre a decisão do governo e o primeiro turno ampliou sua dimensão eleitoral.
Segundo turno terá novo teste para a medida
A avaliação negativa dentro da campanha de Lula não significa que a proibição tenha determinado o resultado do primeiro turno. O desempenho eleitoral é influenciado por múltiplos fatores, e os dados disponíveis até o momento permitem apenas identificar uma mudança na percepção interna da campanha.
O segundo turno deverá oferecer um novo contexto para medir a repercussão da medida. Com a retirada das plataformas prevista para 6 de outubro, o debate sobre as apostas poderá ganhar novos elementos justamente durante o período decisivo da eleição.
Além da disputa eleitoral, o futuro do mercado dependerá da tramitação da MP nº 1.394/2026 no Congresso e das decisões judiciais relacionadas à medida. Enquanto esse processo avança, a campanha presidencial terá de lidar com um tema que inicialmente era visto como uma possível vantagem eleitoral e que, após o primeiro turno, passou a ser tratado internamente com maior cautela.
Fonte: Focus Brasil | Autor: henriquea

