Disputa sobre loterias municipais ganha força no Supremo
A Caixa Econômica Federal deu um novo passo na disputa envolvendo a legalidade das loterias municipais no Brasil. A instituição protocolou manifestação no Supremo Tribunal Federal (STF) como amicus curiae na ADPF 1212, ação que questiona a constitucionalidade de leis municipais voltadas à criação de sistemas próprios de loterias, apostas e sorteios.
O documento foi encaminhado ao ministro Kassio Nunes Marques, relator do processo, e reforça o debate sobre os limites constitucionais da exploração de apostas por municípios brasileiros.
A ação foi apresentada pelo Partido Solidariedade e envolve legislações municipais aprovadas em cidades de diversos estados do país, incluindo São Paulo, Campinas, Guarulhos, Belo Horizonte, Porto Alegre, Foz do Iguaçu, Bodó e Miguel Pereira.
Segundo a Caixa, a criação de loterias municipais representa um risco à uniformidade regulatória do setor e pode provocar impactos diretos na fiscalização, na prevenção à lavagem de dinheiro e na arrecadação de recursos destinados a programas sociais.
O tema vem sendo acompanhado de perto pelo mercado de iGaming e por operadores do setor regulado de apostas no Brasil.
Caixa questiona competência dos municípios
Na manifestação apresentada ao STF, a Caixa Econômica Federal sustenta que a Constituição Federal atribui exclusivamente à União a competência para legislar sobre sistemas de loterias e sorteios.
O banco argumenta que a multiplicação de legislações municipais cria um cenário de fragmentação regulatória que compromete o controle nacional das apostas.
De acordo com o documento, a atividade lotérica possui natureza nacional e não pode ser enquadrada como assunto de interesse exclusivamente local.
A instituição também afirma que a expansão das apostas online torna inviável limitar operações ao território de um município específico, principalmente em plataformas digitais.
Para a Caixa, permitir que milhares de municípios criem sistemas próprios de apostas poderia gerar conflitos regulatórios e dificultar a supervisão centralizada realizada pelo governo federal.
ADPF 1212 contesta leis municipais em diversos estados
A ADPF 1212 questiona normas aprovadas em municípios de diferentes regiões brasileiras.
| Município | Estado |
|---|---|
| São Paulo | SP |
| Campinas | SP |
| Guarulhos | SP |
| Belo Horizonte | MG |
| Foz do Iguaçu | PR |
| Porto Alegre | RS |
| Pelotas | RS |
| Bodó | RN |
| Miguel Pereira | RJ |
Segundo o Partido Solidariedade, autor da ação, os municípios estariam invadindo competência privativa da União ao criar regras próprias para exploração de loterias e apostas.
A ação também sustenta que essas iniciativas podem prejudicar a livre concorrência e criar vantagens competitivas para operadores locais sem supervisão adequada da União.
Outro ponto levantado envolve riscos sociais relacionados à ludopatia, endividamento familiar e ausência de mecanismos robustos de proteção ao consumidor.
Liminar suspendeu loterias municipais em todo o país
Em dezembro de 2025, o ministro Kassio Nunes Marques concedeu liminar suspendendo leis e operações lotéricas municipais em todo o Brasil.
A decisão determinou a interrupção imediata de atividades relacionadas a apostas municipais, além da suspensão de licitações e novos atos administrativos ligados ao setor.
Segundo o ministro, a exploração lotérica exige estrutura regulatória nacional e fiscalização centralizada.
A decisão também estabeleceu multas pesadas para casos de descumprimento.
| Penalidade | Valor |
|---|---|
| Municípios e empresas | R$ 500 mil por dia |
| Prefeitos e gestores | R$ 50 mil por dia |
O entendimento do relator aponta que operadores sem autorização federal não podem explorar serviços lotéricos em nível municipal.
O processo segue pendente de análise definitiva pelo plenário do Supremo Tribunal Federal.
Caixa destaca riscos de lavagem de dinheiro
Outro ponto central da manifestação da Caixa envolve os riscos relacionados à lavagem de dinheiro e ao financiamento de atividades ilícitas.
Segundo a instituição, a pulverização de sistemas municipais de apostas dificultaria o monitoramento financeiro e enfraqueceria mecanismos de Compliance.
O banco afirma que a ausência de padronização regulatória comprometeria a comunicação de operações suspeitas ao COAF e aumentaria vulnerabilidades no sistema financeiro nacional.
A Caixa cita ainda relatórios da Estratégia Nacional de Combate à Corrupção e à Lavagem de Dinheiro (ENCCLA), que apontam o setor de apostas como atividade de alto risco.
O documento também menciona que milhares de municípios não possuem estrutura técnica adequada para fiscalizar operações lotéricas digitais.
Banco defende modelo centralizado
A Caixa reforçou no processo que atua na operação das loterias federais desde 1969, em regime de exclusividade previsto pelo Decreto-Lei nº 759/1969.
Segundo a instituição, o modelo federal permite maior controle, rastreabilidade financeira e destinação social dos recursos arrecadados.
O banco destacou ainda possuir certificação internacional de Jogo Responsável da World Lottery Association (WLA), algo inexistente entre loterias municipais brasileiras.
De acordo com a manifestação, as Loterias Caixa destinaram R$ 12,2 bilhões para programas sociais em 2025.
| Destino dos Recursos | Valor |
|---|---|
| Seguridade Social | R$ 4,46 bilhões |
| Segurança Pública | R$ 2,54 bilhões |
| Esporte | R$ 1,32 bilhão |
| Outras áreas sociais | Bilhões em repasses |
A instituição sustenta que a fragmentação municipal reduziria a eficiência arrecadatória e poderia provocar canibalização das receitas lotéricas existentes.
Judicialização cresce no setor de apostas
O debate sobre competências regulatórias no mercado de apostas tem gerado intensa judicialização no STF.
Além da ADPF 1212, outras ações relacionadas às loterias estaduais e regulamentação das apostas esportivas já chegaram à Corte nos últimos anos.
Especialistas avaliam que a definição do Supremo poderá impactar diretamente o futuro das loterias municipais e o modelo regulatório do setor no Brasil.
A discussão também ocorre em paralelo ao avanço da regulamentação conduzida pela Secretaria de Prêmios e Apostas, órgão vinculado ao Ministério da Fazenda.
Enquanto o julgamento definitivo não acontece, a liminar concedida por Kassio Nunes Marques segue válida em todo o território nacional.
Fonte: BNL Data e Autor: Magno José

