As bets autorizadas a operar nacionalmente receberam R$ 220,6 bilhões em depósitos ao longo de 2025, segundo dados preliminares do Ministério da Fazenda obtidos por meio da Lei de Acesso à Informação. O levantamento mostra ainda R$ 36,9 bilhões em GGR, enquanto estimativas baseadas em dados de transferências via Pix apontam um volume significativamente maior para o conjunto do mercado.
A diferença entre os números reacendeu o debate sobre o tamanho do mercado ilegal de apostas no Brasil. No entanto, os dados não permitem concluir, isoladamente, que toda a diferença corresponda a plataformas clandestinas, já que as metodologias utilizadas pela Fazenda e pelo Comitê Nacional de Secretários de Fazenda (Comsefaz) são distintas.
Fazenda registra R$ 220,6 bilhões em depósitos
De acordo com os dados preliminares da Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA), as operadoras autorizadas pelo governo federal receberam R$ 220,6 bilhões em depósitos durante 2025.
Desse montante, R$ 36,9 bilhões corresponderam ao saldo negativo dos apostadores e, consequentemente, à receita bruta de jogos das empresas. Outros R$ 183,7 bilhões foram destinados ao pagamento de prêmios e à oferta de bônus sacáveis, conforme os dados divulgados.
O Ministério da Fazenda informou que os números ainda possuem caráter preliminar e podem sofrer alterações após os procedimentos de conferência e consolidação das informações. O acompanhamento das operações autorizadas é realizado por meio do Sistema de Gestão de Apostas (Sigap), ferramenta criada para permitir a regulação, o monitoramento e a fiscalização do setor.
O mercado regulado começou a operar nacionalmente em 1º de janeiro de 2025. Desde então, apenas empresas autorizadas pela SPA podem atuar em âmbito federal, e seus sites utilizam a extensão “.bet.br”.
GGR das bets chegou a R$ 36,9 bilhões
O GGR registrado pelas operadoras autorizadas correspondeu a R$ 36,9 bilhões no ano. O valor representa 16,7% dos depósitos contabilizados pela Fazenda.
A metodologia regulatória brasileira trata o produto da arrecadação das apostas de forma específica. Em nota técnica, o Ministério da Fazenda esclareceu que o GGR corresponde à receita bruta de apostas antes das deduções previstas na legislação. A norma também estabelece a destinação dos recursos arrecadados pelo setor. :contentReference[oaicite:4]{index=4}
Os dados divulgados pela pasta são relevantes porque oferecem, pela primeira vez, uma dimensão oficial dos valores movimentados pelas empresas autorizadas durante o primeiro ano completo do mercado regulado.
Ao mesmo tempo, é necessário diferenciar depósitos, GGR e valores efetivamente retidos pelas empresas. Os R$ 220,6 bilhões representam depósitos, enquanto os R$ 36,9 bilhões correspondem ao saldo negativo dos apostadores informado no levantamento.
Estimativa do Comsefaz chega a R$ 350,97 bilhões
Os números da Fazenda são inferiores aos apresentados pelo Comsefaz. Em boletim divulgado em agosto de 2026, o órgão estimou que as plataformas de apostas movimentaram R$ 350,97 bilhões em transferências via Pix. O estudo apontou ainda uma perda líquida de R$ 62,5 bilhões para as famílias brasileiras.
A estimativa do Comsefaz foi construída com base em informações do Banco Central e em uma metodologia própria para identificar mudanças nas transferências de pessoas físicas para empresas dos segmentos de artes, cultura, esporte e recreação após a regulamentação das apostas.
Segundo dados divulgados sobre o estudo, a perda líquida de R$ 62,5 bilhões representa a diferença entre o dinheiro enviado às plataformas e os valores devolvidos aos apostadores na forma de prêmios. :contentReference[oaicite:5]{index=5}
A comparação com os dados da Fazenda, portanto, deve ser feita com cautela. O levantamento federal contabiliza operações reportadas pelas empresas autorizadas por meio do Sigap, enquanto o estudo do Comsefaz utiliza dados agregados de transferências via Pix e uma metodologia de estimativa.
Diferença de R$ 130 bilhões não comprova mercado ilegal
A distância entre os R$ 220,6 bilhões registrados pela Fazenda e os R$ 350,97 bilhões estimados pelo Comsefaz é de aproximadamente R$ 130,4 bilhões. O número chama atenção porque pode indicar a existência de movimentações que não aparecem nos dados das operadoras autorizadas.
Apesar disso, não é tecnicamente correto afirmar que os R$ 130 bilhões correspondem integralmente ao mercado ilegal. As duas bases de dados possuem escopos e metodologias diferentes, e a própria comparação entre os levantamentos não permite atribuir automaticamente a diferença às plataformas clandestinas.
Estudo citado na cobertura do tema pela imprensa, elaborado pela LCA Consultoria para o Instituto Brasileiro de Jogo Responsável (IBJR), estimou que as operações clandestinas poderiam representar entre 41% e 51% do mercado total. A estimativa, contudo, também não deve ser confundida com uma medição direta realizada pelo governo.
O cenário reforça a importância de ampliar a capacidade de fiscalização. O Ministério da Fazenda informa que o Sigap recebe dados das operações dos agentes autorizados, permitindo à SPA acompanhar as atividades do mercado regulado. :contentReference[oaicite:6]{index=6}
ANJL contesta metodologia do levantamento
A Associação Nacional de Jogos e Loterias (ANJL) contestou a interpretação de que as famílias brasileiras teriam transferido R$ 62,5 bilhões exclusivamente para empresas de apostas em 2025.
Segundo a entidade, o estudo do Comsefaz considera transferências para empresas de quatro segmentos econômicos, e não exclusivamente para o mercado de apostas. A associação também questiona a linha temporal utilizada no levantamento e afirma que fatores macroeconômicos relacionados à expansão do Pix podem ter influenciado os resultados.
A divergência mostra que os números devem ser interpretados de acordo com a metodologia de cada levantamento. Enquanto os dados do Ministério da Fazenda são derivados das informações fornecidas pelas empresas autorizadas ao Sigap, o estudo do Comsefaz parte de estatísticas de pagamentos e estimativas sobre o comportamento das transferências.
Outubro teve pico de apostadores
Os dados também mostram diferenças importantes ao longo do ano. Outubro foi o mês de maior volume de depósitos nas plataformas autorizadas. O período coincidiu com a reta final do Campeonato Brasileiro e com as fases eliminatórias da Copa Libertadores e da Copa Sul-Americana.
Em média, 9,25 milhões de pessoas realizaram apostas por mês durante 2025. O pico ocorreu também em outubro, quando 10,82 milhões de apostadores foram registrados.
Considerando o ano inteiro, 25 milhões de brasileiros registraram apostas nas plataformas autorizadas. O número está alinhado ao balanço do Ministério da Fazenda, que registrou 25,2 milhões de participantes no mercado regulado em 2025.
A sazonalidade ajuda a explicar por que o futebol continua sendo um dos principais fatores de movimentação do setor. Grandes competições e fases decisivas de campeonatos podem elevar a atividade dos usuários e, consequentemente, o volume financeiro registrado pelas operadoras.
Mercado regulado ainda enfrenta desafio do ilegal
O contraste entre os dados da Fazenda e do Comsefaz coloca o combate ao mercado ilegal entre os principais desafios da regulamentação brasileira. Desde 2025, o governo passou a dispor de mecanismos de monitoramento mais estruturados, mas as diferenças metodológicas entre os levantamentos mostram que ainda há dificuldades para dimensionar toda a atividade relacionada às apostas.
Para o setor, a consolidação de dados confiáveis é importante tanto para a fiscalização quanto para a formulação de políticas públicas. A regulamentação estabelece que as empresas autorizadas devem manter informações sobre apostadores e operações e transmiti-las ao Ministério da Fazenda conforme as regras do Sigap.
O cenário também reforça a necessidade de distinguir o mercado regulado das operações clandestinas. Para o consumidor, a consulta às empresas autorizadas e aos domínios oficiais é uma das formas de identificar plataformas que integram o sistema federal.
Em um ambiente ainda recente, os R$ 220,6 bilhões em depósitos registrados pela Fazenda representam uma primeira fotografia oficial do mercado autorizado em 2025. Já os R$ 350,97 bilhões estimados pelo Comsefaz mostram que o universo de transferências associado às apostas pode ser significativamente maior, embora a diferença de aproximadamente R$ 130 bilhões não possa ser atribuída exclusivamente ao mercado ilegal sem evidências adicionais.
O avanço da regulamentação dependerá, portanto, não apenas do volume de recursos movimentados, mas também da capacidade de integrar dados, combater operadores clandestinos e aprimorar a transparência sobre o funcionamento do setor. O acompanhamento dessas informações será central para avaliar a evolução das apostas esportivas no Brasil.
Fonte: iGB Brasil | Autor: Gildo Mazza

