Brasileiros demonstram mais cautela com apostas, mas frequência permanece elevada
Uma nova pesquisa realizada pelo Datafolha indica mudanças importantes na forma como os brasileiros enxergam as apostas esportivas e os jogos online. Embora o número de pessoas que continuam apostando tenha permanecido praticamente estável em comparação aos últimos levantamentos, os dados apontam uma maior percepção dos riscos associados à atividade e uma redução no uso de recursos financeiros considerados mais sensíveis para financiar as apostas.
O estudo, realizado entre os dias 20 e 21 de maio de 2026, entrevistou 1.970 pessoas em 139 municípios brasileiros, abrangendo capitais, regiões metropolitanas e cidades do interior. A margem de erro da pesquisa é de dois pontos percentuais para mais ou para menos.
Os resultados revelam um cenário de maior conscientização por parte dos usuários, ainda que a frequência de apostas continue elevada entre aqueles que participam regularmente desse tipo de entretenimento.
Percepção sobre vício cresce entre os brasileiros
Um dos dados que mais chamaram atenção foi o aumento da parcela da população que considera as apostas esportivas e os jogos online uma atividade capaz de causar dependência.
Segundo o levantamento, 57% dos entrevistados afirmam acreditar que as bets e os cassinos online podem provocar vício. Em 2024, esse percentual era de 54%.
Embora a variação seja relativamente pequena, ela reforça uma tendência de maior preocupação da sociedade com os impactos das apostas sobre a saúde emocional e financeira dos jogadores.
Ao mesmo tempo, permanece estável o grupo que enxerga a atividade como uma forma de perda de dinheiro. Atualmente, 30% dos entrevistados têm essa percepção, exatamente o mesmo índice observado na pesquisa anterior.
Já aqueles que classificam as apostas como uma forma de diversão passaram de 9% para 6%, uma oscilação considerada dentro da margem de erro.
Apenas 1% dos entrevistados afirmam enxergar as apostas como fonte de renda ou investimento financeiro.
Uso de recursos financeiros para apostar diminui
Outro aspecto relevante identificado pelo levantamento foi a redução do uso de recursos financeiros considerados mais arriscados para financiar apostas.
Comparando os números atuais com os dados de 2024, observa-se uma queda significativa em diferentes categorias de gastos utilizados pelos apostadores.
A parcela daqueles que afirmaram ter utilizado dinheiro guardado na poupança para apostar caiu de 22% para 19%.
Já o percentual de pessoas que deixaram de comprar algum bem ou serviço para direcionar recursos às apostas apresentou redução ainda mais expressiva, passando de 19% para 11%.
O uso do cartão de crédito também recuou. Enquanto 15% dos apostadores relataram utilizar essa modalidade de pagamento em 2024, atualmente o índice está em 10%.
Entre os entrevistados que afirmaram ter recorrido a empréstimos para apostar, a queda foi de 15% para 8%.
Da mesma forma, os que deixaram de pagar contas para direcionar recursos às plataformas de apostas diminuíram de 13% para apenas 6%.
Mudança pode refletir maior conscientização
Especialistas avaliam que diversos fatores podem explicar essa mudança de comportamento.
Entre eles estão o avanço da regulamentação do mercado, campanhas de conscientização sobre os riscos associados ao jogo excessivo e medidas adotadas pelo governo para limitar o acesso de determinados grupos às plataformas de apostas.
Além disso, o aumento do endividamento das famílias brasileiras pode ter levado parte dos usuários a adotar uma postura mais cautelosa em relação ao uso de recursos financeiros para entretenimento.
Segundo análises de especialistas da Fundação Getulio Vargas (FGV), os fenômenos do superendividamento e das apostas online frequentemente apresentam relações próximas, exigindo acompanhamento constante por parte dos órgãos públicos e do setor privado.
Frequência de apostas permanece estável
Apesar da redução no uso de crédito, empréstimos e poupança para apostar, a frequência de participação dos usuários continua praticamente inalterada.
Entre aqueles que afirmam apostar regularmente, 36% realizam apostas ao menos uma vez por semana.
O percentual é muito próximo dos 35% registrados no levantamento anterior, demonstrando estabilidade no comportamento dos jogadores ativos.
Outro dado que chama atenção é que aproximadamente 20% dos apostadores afirmam participar diariamente de apostas esportivas ou jogos online.
Já os usuários que apostam quinzenalmente representam 13% da amostra, enquanto aqueles que realizam apostas mensais somam 19%.
Os participantes que apostam com menor frequência correspondem a cerca de 11% do total.
Esses números indicam que, embora os usuários estejam mais cuidadosos na gestão de seus recursos financeiros, o hábito de apostar continua presente para uma parcela significativa da população.
Perfil do apostador brasileiro em 2026
O estudo também atualizou o perfil predominante dos usuários de plataformas de apostas no país.
Os homens seguem representando a maior parte dos apostadores ativos.
Segundo os dados, 11% dos homens entrevistados afirmam apostar regularmente, enquanto entre as mulheres o índice é de apenas 3%.
A idade também aparece como um fator relevante.
Entre jovens de 18 a 24 anos, 13% afirmam participar atualmente de apostas esportivas ou cassinos online.
Na faixa de 25 a 34 anos, o percentual é de 11%.
Já entre pessoas de 35 a 44 anos, o índice chega a 9%.
Acima dessa faixa etária, a participação cai para cerca de 4%.
Os dados reforçam que o público mais jovem continua sendo o principal consumidor desse tipo de entretenimento digital.
Gastos médios permanecem relevantes
Mesmo com uma postura financeira mais cautelosa, os valores destinados às apostas continuam significativos.
De acordo com o Datafolha, o gasto médio mensal com apostas esportivas online é de R$ 241 por usuário.
Nos cassinos online, a média registrada foi de R$ 232 por mês.
Embora esses números não representem necessariamente situações de risco financeiro, eles demonstram a relevância econômica que o setor alcançou nos últimos anos.
O crescimento do mercado regulado reforça a necessidade de iniciativas voltadas à educação financeira e ao consumo consciente dentro das plataformas.
Relatos reforçam preocupação com impactos emocionais
Além dos números, a pesquisa também reuniu relatos que ilustram os impactos emocionais que podem surgir em decorrência do hábito de apostar.
Entre os entrevistados, alguns relataram experiências relacionadas à ansiedade, frustração e conflitos emocionais gerados pelas apostas esportivas.
Um dos casos mencionados envolveu um torcedor que chegou a apostar contra o próprio time em busca de retorno financeiro, situação que posteriormente passou a gerar desconforto psicológico e motivou seu afastamento das plataformas.
Esse tipo de relato reforça a importância das iniciativas de Jogo Responsável, cada vez mais presentes no mercado regulado brasileiro.
Regulamentação fortalece ambiente mais seguro
Desde a implementação das novas regras para o setor, operadores licenciados passaram a adotar mecanismos mais rigorosos de proteção ao consumidor.
Ferramentas de autoexclusão, monitoramento comportamental, limites de gastos e programas educativos têm ganhado espaço dentro das plataformas autorizadas.
O objetivo é criar um ambiente mais transparente, seguro e alinhado às melhores práticas internacionais.
Especialistas apontam que a combinação entre regulamentação, fiscalização e conscientização dos usuários será fundamental para o desenvolvimento sustentável do setor nos próximos anos.
Mercado amadurece, mas desafios permanecem
Os resultados da pesquisa sugerem que o apostador brasileiro está passando por um processo gradual de amadurecimento.
A redução no uso de empréstimos, crédito e recursos destinados a despesas essenciais demonstra uma postura mais cautelosa diante das apostas.
No entanto, a estabilidade da frequência de jogo indica que o comportamento dos usuários continua exigindo atenção por parte de reguladores, operadores e especialistas em saúde financeira.
O desafio agora será aprofundar os estudos sobre o impacto das apostas na sociedade brasileira e ampliar iniciativas voltadas à educação financeira, prevenção ao jogo problemático e fortalecimento da cultura de responsabilidade dentro do setor de iGaming.
Mais informações sobre o tema podem ser consultadas na Folha de S.Paulo e em estudos conduzidos pela Fundação Getulio Vargas (FGV).
Fonte: BNL Data
Autor: Magno José

