Filipinas avaliam restrição ao jogo online

A febre do jogo online nas Filipinas gera crise social com dívidas, vício e destruição familiar. Governo e Congresso avaliam restrições e até banimento.

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Explosão do jogo online nas Filipinas gera alerta e pode levar a novas restrições

O avanço das apostas online nas Filipinas está se transformando em uma crise social. A facilidade de apostar a qualquer hora e de qualquer lugar criou uma onda de vício que está afetando milhões de pessoas e suas famílias, levando o Congresso e o governo a avaliarem medidas restritivas e até mesmo a proibição das plataformas digitais.

Do entretenimento ao vício

Tradicionalmente, os filipinos sempre encontraram formas de apostar em eventos como rinhas de galo, corridas de cavalo, pôquer, loterias e bingos. Durante a pandemia, quando sair de casa se tornou difícil, o governo decidiu expandir as licenças para operadores online, garantindo arrecadação por meio de jogos digitais. Essa medida rapidamente se popularizou e, mesmo após o fim das restrições sanitárias, as apostas online continuaram em crescimento acelerado.

O resultado foi um mercado bilionário que beneficia empresas, governo e alguns apostadores. No entanto, o impacto negativo sobre a sociedade é cada vez mais visível, como relatou Reagan Praferosa, ex-apostador compulsivo e fundador do grupo Recovering Gamblers Philippines. Ele descreve a situação atual como uma verdadeira “epidemia” de vício em jogos digitais.

Histórias dramáticas de compulsão

Apesar de as plataformas digitais serem restritas para maiores de 18 ou 21 anos, já foram registrados casos de viciados de apenas 13 anos. Em depoimentos ao grupo de apoio, famílias relataram episódios extremos: mães que recorreram à prostituição para quitar dívidas e pessoas que venderam bens da família, como jazigos, para continuar jogando. Em casos mais graves, alguns perderam a esperança e cometeram suicídio.

“Se não morrerem por causa do jogo online, vão acabar se matando de estresse e desespero”, alertou Praferosa.

Pressão política por restrição

O aumento do vício em jogos digitais está criando um raro consenso político nas Filipinas. O presidente Ferdinand Marcos Jr. já reconheceu publicamente os impactos sociais e deve abordar o tema em seu próximo discurso sobre o Estado da Nação. “Muitas famílias estão sendo destruídas pelos jogos de azar online, especialmente quando usados de forma irresponsável”, declarou em vídeo.

Órgãos como o Banco Central, o Ministério das Finanças e a PAGCOR (Companhia Filipina de Jogos e Entretenimento) estudam implementar novos controles para mitigar os efeitos do problema.

Mercado cresce em ritmo acelerado

Os números refletem a dimensão do desafio. Em março de 2025, filipinos apostaram 17,89 bilhões de pesos filipinos (US$ 313,85 milhões) em jogos eletrônicos, valor que superou as apostas em cassinos físicos no mesmo mês. Segundo a PAGCOR, esse montante é mais que o dobro do total apostado em 2022.

Atualmente, existem 76 operadoras licenciadas para oferecer jogos online no país, quase três vezes mais do que em março de 2024. Entre elas, a DigiPlus Interactive, maior empresa do setor, afirma ter 47% do mercado e mais de 40 milhões de usuários registrados, de um universo de 69 milhões de adultos. Outras companhias, como a Bloomberry Resorts, vêm apostando alto em promoções e bônus para atrair novos jogadores.

De POGOs a PIGOs: a transformação do setor

Inicialmente, os jogos online das Filipinas (POGOs) eram direcionados a estrangeiros, especialmente chineses, e tinham acesso bloqueado para residentes locais. Após uma série de escândalos envolvendo corrupção e crimes, o governo começou a fechar essas operações.

Com a infraestrutura e regulamentação já montadas, abriu-se espaço para as plataformas domésticas, conhecidas como PIGOs, que agora miram diretamente a população local, criando um novo problema social.

Propostas de proibição

Diante da crise, parlamentares como Bienvenido “Benny” Abante Jr., Juan Miguel “Migz” Zubiri e Christopher “Bong” Go apresentaram projetos de lei para banir completamente as apostas digitais. Eles argumentam que o vício está atingindo jovens e famílias vulneráveis.

“Já fechamos as portas para os POGOs pelos danos que causaram. Mas agora temos um problema ainda mais perigoso dentro de nossas casas”, alertou Zubiri.

A Igreja Católica também apoia o fim do jogo online, destacando que “o cassino agora está no bolso de todos, acessível 24 horas por dia, sete dias por semana”, como disse o cardeal Pablo Virgilio David.

PAGCOR defende regulamentação

Apesar das críticas, a PAGCOR argumenta que manter as apostas online sob regulamentação é fundamental para arrecadação e geração de empregos. Apenas em 2024, a indústria pagou mais de 100 bilhões de pesos filipinos em taxas e impostos, além de empregar 32 mil pessoas. A entidade também atribui parte do problema às plataformas ilegais que atuam fora de controle.

O futuro do jogo online no país

Especialistas como Michael Henry Yusingco, da Universidade Ateneo de Manila, defendem que qualquer decisão deve ser cuidadosamente planejada para evitar medidas precipitadas. Segundo Bob Herrera-Lim, consultor da Teneo, propostas legislativas mais profundas só devem avançar depois da análise do orçamento de 2026 e do processo de impeachment da vice-presidente Sara Duterte.

Enquanto isso, grupos de recuperação de apostadores continuam lutando contra o vício, mostrando que o impacto do jogo online vai muito além dos números, afetando diretamente a vida e o bem-estar de milhares de famílias.

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Afrânio Ítalo
Afrânio Ítalohttps://conexaobet.com/
Estudante no Instituto Federal e redator júnior nas horas vagas.

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