Os três últimos painéis do BiS João Pessoa foram realizados nesta quinta-feira (17), encerrando a primeira edição do evento na capital paraibana. A programação reuniu representantes do mercado para discutir sports bars, responsabilidade de influenciadores digitais e a participação das apostas no desenvolvimento do futebol estadual e regional.
Os debates também abordaram temas como compliance, integridade, publicidade, experiência do consumidor e os efeitos das mudanças regulatórias sobre diferentes segmentos ligados ao ecossistema de iGaming licenciado no Brasil.
Sports bars ganham espaço no debate do BiS João Pessoa
O painel “Sports Bars e a Economia da Experiência Esportiva” reuniu Lucinéia Souzza, diretora jurídica e de compliance da Bethanus; Joberto Porto, chief legal officer da CDA Gaming; e Fábio Tibéria, vice-presidente da BetConstruct.
Lucinéia relatou sua participação em um projeto de sports bar cujo desenvolvimento levou mais de um ano. Para ela, iniciativas que combinam diferentes segmentos exigem planejamento e responsabilidade, especialmente por envolverem atividades relacionadas a jogos, apostas e bebidas alcoólicas.
“Não é algo simples, é complexo unir vários segmentos em um setor tão sensível. Nós não podemos romantizar o nosso setor. Existe uma sensibilidade, pois lidamos com pessoas, vidas”.
A executiva também defendeu que projetos desse tipo sejam apresentados com estrutura, transparência e sustentabilidade.
“Para que a gente possa defender o nosso setor, não podemos ficar apenas na teoria. Para apresentar um projeto, ele precisa ser estruturado com responsabilidade, transparência e, principalmente, com sustentabilidade. Precisamos demonstrar que o setor tem suas especificidades, mas existe um outro lado que realmente é viável”, completou.
Joberto Porto explicou que o conceito de sports bar não deve ser entendido apenas como um estabelecimento tradicional que oferece apostas. Na visão apresentada durante o painel, o jogo permanece como elemento central, enquanto gastronomia, bebidas e transmissão de eventos esportivos complementam a experiência.
“Não é um bar que tem jogo, é o contrário. É um ambiente de jogo que tem um entretenimento a mais”.
Porto resumiu a operação em três elementos: jogo, experiência do apostador e integridade. Segundo ele, o jogo funciona como produto principal, enquanto os demais componentes ajudam a estruturar a experiência e a sustentabilidade da operação.
“Existe a questão da experiência do apostador dentro daquele ambiente, vem a questão da gastronomia, da bebida, de assistir ao jogo, entre outros. Faz parte de uma camada que está ali naquele ambiente. Mas o produto principal é o jogo. E tem a integridade, a importância do compliance, que dá sustentabilidade a toda essa operação”.
Fábio Tibéria comparou o desenvolvimento do mercado brasileiro com a trajetória italiana e destacou mudanças tecnológicas e nos meios de pagamento ao longo dos últimos anos.
“Estou há 20 anos no Brasil, eu comecei a minha primeira operação em 2011. O que mais mudou foi a tecnologia e os métodos de pagamento. Hoje, nós temos a IA e essa nova direção de gamificação, aumentando a interação com a plataforma, acelerando muitas coisas”, pontuou.
Ao tratar da regulamentação, Tibéria apresentou sua avaliação sobre a forma como a aposta de quota fixa foi inicialmente enquadrada no Brasil e comparou o cenário publicitário brasileiro ao italiano.
“o pecado original do governo foi no começo, ao definir aposta esportiva abaixo da lotérica. Aposta de quota fixa não tem nada a ver com jogo de lotérica. O Brasil está percorrendo a mesma trajetória que a Itália, estamos falando há meses da proibição da publicidade. Na Itália, isso aconteceu em 2018, quando o governo começou a proibir a publicidade das casas de apostas, só a loteria nacional poderia fazer publicidade”, explicou.
Para o executivo, os sports bars representam uma nova etapa de desenvolvimento do mercado físico.
“Sports bar é a nova geração. Como a Itália, o Brasil também está se direcionando ao mercado físico”, complementou.
Influenciadores e responsabilidade na publicidade
O segundo painel, “Além do Clique: Poder e Responsabilidade na Influência Digital”, reuniu Bárbara Teles, head de Legal e Compliance da Playtech Brasil; Leonardo Benites, CEO da Propane; e Natalia Nogues, CEO da Control F5. A conversa foi moderada por Beatriz Carvalho, advogada do escritório Evânio Moura Advogados e membro da ABRID.
O debate tratou dos limites da atuação de influenciadores na promoção de produtos e serviços de apostas e da necessidade de ampliar a responsabilidade de todos os agentes envolvidos na comunicação do setor.
Bárbara Teles afirmou que o mercado não pode depender exclusivamente do bom senso individual de quem produz conteúdo. Ela também relacionou o cenário atual ao período anterior à regulamentação do segmento.
“Em 2018, tivemos a legalização das apostas esportivas, mas ficamos mais de seis anos sem uma regulação”, afirmou.
Segundo a executiva, durante esse período houve operadores que buscaram promover o jogo responsável e implementar controles, enquanto outros teriam adotado práticas consideradas irresponsáveis.
Natalia Nogues chamou atenção para a atuação de microinfluenciadores e defendeu maior responsabilidade das plataformas digitais e dos órgãos responsáveis pela fiscalização.
“Eles seguem fazendo exatamente o mesmo trabalho. A Meta tem que ter algoritmos, tem que estar constantemente bloqueando. Temos que ter responsabilidade, como pessoas da indústria, de exigir que esses meios bloqueiem e que os órgãos também punam esses influenciadores”, frisou.
As discussões ocorrem em um ambiente regulatório que passou a estabelecer obrigações específicas para a publicidade de apostas de quota fixa. Em julho de 2026, o Ministério da Justiça e Segurança Pública, o Ministério da Fazenda e a Secretaria de Comunicação Social publicaram regras que incluem restrições de conteúdo, proteção de crianças e adolescentes e verificação dos anunciantes.
O tema também está relacionado às regras de legislação de apostas, que estabelecem obrigações para agentes operadores e participantes da cadeia de comunicação.
Leonardo Benites, por sua vez, destacou a necessidade de ampliar a educação sobre o segmento entre os consumidores e também entre os influenciadores.
“Qualquer problema da nossa indústria cai no ponto da educação. O brasileiro, graças ao banimento de quase um século, não tem quase nenhuma educação sobre o segmento de apostas, e isso também vale para o influenciador”, declarou.
Futebol regional entra no centro das discussões
O último painel do BiS João Pessoa, intitulado “Lado B do Futebol: Campeonatos Estaduais e Regionais”, reuniu Maurício Santos, CEO do Grupo MCS; Beetto Saad, apresentador e diretor da BandSport e da Agência BPS; Arthur Lobo, fundador da Confut; e Ricardo Cesar, advogado e auditor do TJD-SE.
Beetto Saad apresentou o chamado “Lado B” como a perspectiva dos benefícios que os investimentos da indústria de apostas podem proporcionar ao futebol brasileiro.
“Lado das benesses, da benevolência, dos benefícios que a indústria de vocês traz principalmente para o futebol brasileiro”, afirmou.
O apresentador também mencionou uma medida provisória durante sua participação e defendeu que os setores afetados pelas eventuais mudanças tenham espaço nas discussões sobre o futuro do mercado.
“Quero dizer que essa MP, se for votada e aprovada, precisamos fazer alguma coisa, estar cientes e conscientes de que aqueles atingidos precisam ter voz a favor da indústria, daqueles que investem. Se a MP passar, o futebol brasileiro e a mídia vão cair num abismo absolutamente irreversível”, alertou.
Arthur Lobo afirmou que a incerteza regulatória já produz efeitos sobre o mercado de futebol e defendeu uma atuação conjunta para buscar soluções.
“Acho que a gente já está nesse abismo. A incerteza e a insegurança que o mercado está vivenciando, o mercado de futebol, já impactaram significativamente essa indústria.
A incerteza dessa MP tem trazido um desespero ao nosso mercado. Concordo que essa fala em conjunto, a busca em conjunto pela solução, é o melhor caminho”.
Apostas e campeonatos estaduais
Ricardo Cesar destacou a importância atribuída às apostas e às loterias estaduais para o financiamento de competições regionais. O advogado citou especificamente a Copa Lotese, em Sergipe, como exemplo de campeonato que conta com recursos para seu custeio.
“Visualizo na prática a importância das bets, a importância da loteria estadual. Temos a Copa Lotese no Sergipe. Essa importância do dinheiro, do custeio do campeonato, é vital. Essa MP traz um cenário devastador”, ressaltou.
O advogado também destacou a relevância cultural da Copa do Nordeste para os torcedores da região. Segundo ele, a competição contribui para criar identidade e pertencimento e estimula clubes de menor porte a se organizarem em torno de um produto esportivo com potencial de audiência.
“A Copa do Nordeste traz exatamente o pertencimento, a identidade cultural, e os pequenos passam a ter a necessidade de se unirem para poder ter um produto atrativo, com audiência. A Copa do Nordeste traz esse viés cultural”, finalizou.
BiS João Pessoa encerra primeira edição
Com os três últimos painéis, o BiS João Pessoa encerrou sua primeira edição na capital paraibana. Ao longo dos dois dias de programação, o evento reuniu representantes de diferentes áreas do mercado regulado para discutir aspectos jurídicos, tecnológicos, financeiros, comerciais e esportivos.
Os debates finais ampliaram a discussão para além das plataformas digitais, abordando experiências presenciais, responsabilidade na comunicação e o papel econômico dos investimentos relacionados às apostas no futebol regional.
As regras federais atualmente vigentes também reforçam a responsabilidade dos diferentes participantes da cadeia publicitária. Entre outras medidas, a regulamentação estabelece restrições a conteúdos que apresentem apostas como fonte de renda ou investimento e determina mecanismos de verificação dos anunciantes autorizados.
A cobertura do evento também permite revisitar os debates realizados durante a programação por meio das gravações das transmissões ao vivo. O encontro foi realizado nos dias 16 e 17 de setembro, no Resort Tauá, em João Pessoa.
O impacto das apostas sobre o futebol e os demais setores do ecossistema continuará relacionado à evolução do ambiente regulatório brasileiro, que possui regras específicas para publicidade, jogo responsável e exploração das apostas de quota fixa.
Fonte: iGaming Brazil | Autor: Cristina Possamai

