Polymarket e Kalshi lucram com apostas em guerras e mortes
O crescimento dos chamados mercados preditivos tem chamado a atenção global, especialmente após plataformas como Polymarket e Kalshi ampliarem suas operações para eventos geopolíticos e conflitos armados. O fenômeno já movimentou mais de US$ 1 bilhão em apostas relacionadas a operações militares, mudanças de poder e até mortes de líderes políticos.
O tema ganhou destaque após artigo publicado por Ronaldo Lemos, diretor do Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio de Janeiro, no jornal Folha de S.Paulo. No texto, o especialista alerta para um “flagrante problema moral” envolvendo apostas que tratam diretamente de mortes e crises internacionais.
Mercado bilionário impulsionado por conflitos
Nos últimos meses, a expansão dessas plataformas coincidiu com o aumento das tensões no Oriente Médio. A escalada de operações militares envolvendo o Irã contribuiu para impulsionar o volume de apostas em previsões geopolíticas.
Somente as apostas relacionadas à possível saída de Ali Khamenei do poder movimentaram cerca de US$ 194 milhões. O número evidencia o tamanho do interesse do público por esse tipo de mercado, que combina especulação financeira com eventos de alta relevância global.
Além disso, novos mercados surgiram rapidamente, permitindo que usuários apostem em cenários como ataques militares, mudanças de regime e crises diplomáticas.
Ganhos milionários levantam suspeitas
Casos de apostadores que lucraram valores expressivos chamaram a atenção das autoridades e especialistas. Em uma das situações, usuários da Polymarket chegaram a faturar mais de US$ 500 mil apostando na morte de uma liderança iraniana.
Um exemplo ainda mais extremo envolveu um apostador que acumulou mais de US$ 1 milhão com uma taxa de acerto próxima de 100% em previsões ligadas a operações militares. O padrão identificado sugere apostas realizadas poucas horas antes dos acontecimentos, o que levanta suspeitas sobre possível uso de informações privilegiadas.
Esse cenário intensificou o debate sobre a integridade dos mercados preditivos e a possibilidade de vazamentos de dados sensíveis.
Decisões controversas e reações do mercado
Diante da repercussão negativa, a Kalshi decidiu cancelar todas as apostas relacionadas à morte de Ali Khamenei, devolvendo os valores aos usuários. A medida, no entanto, gerou forte reação entre apostadores, já que a plataforma havia promovido intensamente esses mercados dias antes.
Outro episódio polêmico ocorreu nos Estados Unidos envolvendo a Casa Branca. Durante uma coletiva de imprensa, a secretária Karoline Leavitt encerrou sua fala exatamente aos 64 minutos e 40 segundos.
Na ocasião, havia apostas sobre a duração do evento, com grande probabilidade de ultrapassar 65 minutos. Quem apostou no contrário obteve ganhos de até 50 vezes o valor investido, levantando suspeitas de possível manipulação.
Possível envolvimento de agentes públicos
As preocupações aumentaram após a revelação de que um militar israelense foi indiciado por participar de apostas relacionadas a operações sigilosas. O caso está sob investigação e levanta dúvidas sobre o nível de envolvimento de agentes públicos nesses mercados.
Especialistas alertam que o incentivo financeiro pode criar riscos reais, especialmente quando decisões militares ou políticas podem impactar diretamente os resultados das apostas.
Cuba entra no radar dos apostadores
O interesse por eventos geopolíticos não se limita ao Oriente Médio. Cuba tornou-se recentemente um dos principais focos das apostas, acumulando mais de US$ 934 milhões em previsões.
Entre os cenários mais populares estão:
- Possibilidade de ataque dos Estados Unidos ao país até 2026 (35%)
- Saída do presidente Miguel Díaz-Canel do poder até o fim de 2026 (64%)
Esses números mostram como os mercados preditivos vêm transformando eventos políticos em ativos financeiros negociáveis.
Regulação ainda é incerta
Nos Estados Unidos, o avanço desse modelo já mobiliza legisladores. Senadores iniciaram discussões sobre possíveis regras para limitar ou até proibir apostas relacionadas a temas sensíveis como guerras e mortes.
No entanto, até o momento, nenhum projeto de lei avançou de forma significativa. A ausência de regulamentação clara mantém essas plataformas operando em uma zona cinzenta, semelhante ao que ocorre em outros países.
No Brasil, o debate também ganha força. O setor regulado de apostas já pressiona o governo por medidas mais rígidas contra plataformas internacionais, conforme discussões com a Secretaria de Prêmios e Apostas.
Para entender mais sobre o setor, acesse também iGaming e Legislação.
Debate ético ganha força
Para Ronaldo Lemos, o crescimento desse tipo de mercado revela uma transformação mais profunda. Segundo ele, a chamada “betificação” da sociedade amplia o alcance das apostas para áreas antes consideradas sensíveis.
O especialista destaca que o problema não está apenas na atividade econômica, mas nos incentivos criados. Quando eventos como guerras e mortes passam a gerar lucro, surgem riscos éticos relevantes.
“Há um problema claro de se apostar em morte e em conflitos geopolíticos”, afirma o autor, reforçando que esses mecanismos podem influenciar comportamentos e decisões no mundo real.
O futuro dos mercados preditivos
Apesar das críticas, plataformas como Polymarket e Kalshi continuam expandindo suas operações e atraindo novos usuários. A promessa de transformar opiniões em ativos financeiros negociáveis segue impulsionando o setor.
No entanto, o avanço desse modelo levanta questões importantes sobre transparência, segurança e responsabilidade. A possibilidade de uso de informações privilegiadas e manipulação de eventos coloca em xeque a credibilidade desses mercados.
Com bilhões de dólares em jogo, o desafio agora será encontrar um equilíbrio entre inovação e regulação, evitando que a busca por lucro ultrapasse limites éticos fundamentais.
Fonte: BNL Data e Autor: Magno José

