O mercado offshore ganhou espaço na demanda por iGaming no Brasil após a publicação da Medida Provisória nº 1.394/2026, que proibiu a exploração, a oferta, a intermediação e a publicidade de apostas de quota fixa no país, incluindo jogos online. Dados da Blask mostram que a participação das marcas offshore na demanda medida pelo índice da empresa subiu de 3,4% em 24 de setembro para 11,3% em 30 de setembro.
O avanço ocorreu enquanto as plataformas que haviam recebido autorização no mercado brasileiro ainda permaneciam disponíveis para permitir a retirada de saldos. Pelo cronograma oficial, os sites e aplicativos entram em processo de indisponibilidade a partir de 6 de outubro.
Mercado offshore registra avanço após a MP
O Brasil aparece como o mercado com maior demanda de usuários por iGaming entre os 142 países acompanhados pela Blask. Desde o início do mercado regulado, em janeiro de 2025, as marcas licenciadas concentravam mais de 96% do interesse medido pela plataforma.
Entre 1º de janeiro de 2025 e 24 de setembro de 2026, as marcas offshore representaram, em média, 3,9% da demanda brasileira de iGaming segundo o Blask Index. Na véspera da publicação da MP, o indicador estava em 3,4%.
Depois da medida, a participação offshore aumentou diariamente no acompanhamento divulgado pela empresa. O índice chegou a 9,9% em 29 de setembro, maior nível diário desde o início do mercado regulado.
Na atualização posterior, referente a 30 de setembro, a Blask apontou participação de 11,3%. O dado representa a demanda medida pelo índice da empresa e não equivale diretamente ao percentual de apostadores, ao volume financeiro movimentado ou à receita das plataformas.
A mudança ocorre em um momento de forte transformação do mercado de iGaming brasileiro, que passou de um modelo regulado para um processo de encerramento das operações autorizadas após a publicação da MP.
Demanda por marcas offshore quase triplica
O salto registrado pela Blask representa uma mudança relevante em relação ao período imediatamente anterior à medida. De 3,4% em 24 de setembro para 9,9% em 29 de setembro, a participação das marcas offshore praticamente triplicou em quatro dias. No dia seguinte, chegou a 11,3%.
Segundo a análise da Blask, o comportamento sugere que parte da demanda passou a buscar alternativas estrangeiras depois que o governo determinou o encerramento das operações de apostas de quota fixa no país.
O movimento, entretanto, não permite concluir sozinho que todos os usuários que deixaram plataformas licenciadas migraram para operadores ilegais. O índice acompanha sinais de demanda e interesse por marcas e deve ser interpretado dentro dessa metodologia.
Além disso, o mercado clandestino já existia antes da regulamentação brasileira e continuou funcionando paralelamente às empresas autorizadas. O que os dados indicam é uma mudança na participação relativa das marcas offshore após a publicação da MP.
Rosada prevê pressão sobre o mercado ilegal
Ricardo Bianco Rosada, fundador da brmkt.co e executivo do setor de jogos desde 2001, avalia que a saída das plataformas licenciadas pode ampliar a procura por operadores estrangeiros não autorizados.
“O banimento não cria esse mercado. Ele entrega a ele os outros 30 milhões de clientes, aqueles que até agora apostavam em sites que podiam enxergá-los”.
A declaração foi dada no contexto da análise dos dados da Blask. Rosada também afirmou que o mercado ilegal não desapareceu durante o período de funcionamento do ambiente regulado, mas permaneceu em paralelo.
A expectativa, segundo o executivo, é que a indisponibilidade das plataformas autorizadas a partir de 6 de outubro possa acelerar esse movimento. Trata-se, contudo, de uma projeção, e o comportamento efetivo dos usuários dependerá da evolução da fiscalização e da oferta disponível após o encerramento das operações.
Afiliados perdem espaço em uma semana
A mudança também aparece no mercado de afiliados. Segundo dados da Blask, a cobertura conjunta das 20 marcas mais promovidas em sites afiliados caiu de 715 páginas para 418 entre uma semana e outra, uma redução de 41,5%.
A retração atingiu todas as marcas incluídas no grupo analisado. A Bet365, que havia liderado a cobertura em agosto, passou de 60 sites afiliados para 31.
A Stake assumiu a primeira posição no levantamento de 29 de setembro, embora também tenha registrado queda, de 51 para 38 sites. A Betano, por sua vez, passou de 48 para 33 páginas afiliadas.
| Marca | Semana anterior | 29 de setembro | Variação |
|---|---|---|---|
| Bet365 | 60 | 31 | -29 |
| Stake | 51 | 38 | -13 |
| Betano | 48 | 33 | -15 |
| Total das 20 marcas | 715 | 418 | -41,5% |
Os números representam a quantidade de sites acompanhados pela Blask que promoviam cada marca naquele momento. Eles não correspondem ao número total de afiliados existentes nem ao volume financeiro gerado pelo segmento.
Afiliados enfrentam novas restrições
A redução ocorre em meio à proibição de publicidade e intermediação relacionada às apostas de quota fixa. A MP determina restrições que atingem diferentes formatos de divulgação, enquanto o governo estabeleceu 5 de outubro como prazo para a retirada de materiais publicitários e sinais de patrocínio.
Luiz Felippe Correia de Almeida, CEO da Smart Social, afirmou que a nova realidade aumenta a pressão sobre afiliados dependentes do mercado brasileiro.
“Os afiliados que dependem apenas do Brasil estão sob maior pressão”.
Segundo o executivo, uma alternativa para essas empresas é diversificar a atuação geográfica. Ele também alertou que tentar continuar alcançando o público brasileiro por canais alternativos pode expor os agentes a sanções financeiras.
A atividade de afiliados passa, portanto, por uma mudança estrutural junto com o encerramento do mercado regulado, especialmente para empresas cujo modelo dependia exclusivamente da audiência brasileira.
Publicidade deve sair do ar até 5 de outubro
O cronograma divulgado pelo governo estabeleceu que materiais publicitários e sinais de patrocínio relacionados às apostas deveriam ser retirados até 5 de outubro. Os sites e aplicativos das operações afetadas entram em processo de indisponibilidade a partir de 6 de outubro.
Em balanço divulgado pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública e pelo Ministério da Fazenda, o governo informou que, até 29 de setembro, havia solicitado a derrubada de 5.209 domínios relacionados à exploração de apostas. A Anatel já havia determinado a derrubada de 2.387 desses domínios naquele momento.
O governo também informou a remoção de páginas e perfis de redes sociais associados à oferta irregular. Essas ações fazem parte da estratégia de fiscalização do mercado que permanece fora do regime autorizado.
Paralelamente, o prazo para retirada voluntária de saldos pelos usuários termina nesta segunda-feira, 5 de outubro, às 23h59. A partir do dia seguinte, começa a etapa de indisponibilidade das plataformas prevista pela MP.
Próximo passo será acompanhar a demanda após 6 de outubro
Os dados disponíveis até agora mostram uma mudança rápida no comportamento da demanda por marcas offshore, mas ainda não permitem medir o efeito completo da proibição. O principal marco para uma nova avaliação será o encerramento efetivo das plataformas autorizadas.
A partir de 6 de outubro, a comparação entre a demanda por marcas licenciadas e offshore poderá assumir uma nova configuração. A evolução dependerá tanto do comportamento dos usuários quanto das medidas de bloqueio, fiscalização financeira e combate à oferta irregular.
O episódio também coloca pressão sobre o debate regulatório. Enquanto o mercado legal perde espaço por força da MP nº 1.394/2026, os primeiros dados da Blask indicam aumento da procura relativa por marcas offshore e retração da publicidade afiliada.
A situação ainda pode mudar com a tramitação da medida no Congresso e com as ações judiciais em andamento. Para acompanhar esses desdobramentos, a seção de legislação da Conexão Bet reúne as principais atualizações sobre o marco regulatório das apostas no Brasil.
Fonte: iGaming Brazil | Autor: Lucas Olivan

