As apostas de quota fixa geraram R$ 2,48 bilhões para a União entre janeiro e junho de 2026, segundo levantamento do VerificaBet. Desse montante, R$ 27,8 milhões foram destinados à saúde, o equivalente a 1,18% do total analisado. O relatório “Para onde vai o dinheiro das apostas”, publicado em agosto, também aponta diferenças entre bases oficiais utilizadas para acompanhar a arrecadação e sua repartição.
O estudo utiliza duas planilhas oficiais com bases distintas. O valor de R$ 2,48 bilhões corresponde à série completa da Receita Federal, enquanto a distribuição dos recursos foi calculada a partir de um extrato do Tesouro Gerencial. Por esse motivo, os dois montantes não são somados pelo levantamento.
Arrecadação das apostas cresce 47,8% no semestre
De acordo com o VerificaBet, a arrecadação das apostas no primeiro semestre de 2026 foi 47,8% superior à registrada no mesmo período de 2025. O valor também corresponde a aproximadamente 60% de toda a arrecadação de 2025, que somou R$ 4,16 bilhões.
Na extração do Tesouro Gerencial realizada em 3 de julho, o mês de junho ainda não estava fechado. Essa base registrava R$ 401,5 milhões, enquanto a série da Receita Federal indicava R$ 513,0 milhões para o mesmo recorte utilizado no relatório.
O Ministério da Fazenda informa que as apostas de quota fixa são reguladas no âmbito federal e que, desde 1º de janeiro de 2025, apenas empresas autorizadas pela Secretaria de Prêmios e Apostas podem operar nacionalmente.
Saúde recebeu R$ 27,8 milhões
Na repartição apresentada pelo Tesouro Gerencial, a saúde recebeu R$ 27,8 milhões destinados à prevenção, controle e mitigação dos danos relacionados à prática de jogos. O valor corresponde a 1,18% do total repartido no primeiro semestre.
O turismo recebeu R$ 565,3 milhões, montante 20,3 vezes superior ao destinado à saúde. Já o chamado caixa livre da União recebeu R$ 514,1 milhões, equivalente a 18,5 vezes o valor destinado especificamente à área da saúde.
| Destino | Valor | Vezes o valor da saúde |
|---|---|---|
| Turismo | R$ 565,3 milhões | 20,3× |
| Caixa livre da União (DRU) | R$ 514,1 milhões | 18,5× |
| Esporte | R$ 427,4 milhões | 15,4× |
| Segurança pública | R$ 341,0 milhões | 12,3× |
| Seguridade social | R$ 274,6 milhões | 9,9× |
| Educação | R$ 184,2 milhões | 6,6× |
| Saúde — dano do jogo | R$ 27,8 milhões | 1,0× |
| Exército — fronteira | R$ 18,4 milhões | 0,7× |
| Desenvolvimento industrial | R$ 10,9 milhões | 0,4× |
Em uma comparação diária, o relatório calcula que a saúde recebeu R$ 153.512, enquanto o turismo recebeu aproximadamente R$ 3,1 milhões por dia. A análise também estima R$ 1,83 para a saúde por CPF que apostou no período e R$ 36,34 para cada pessoa que pediu autoexclusão no semestre.
Participação da saúde permanece estável
Segundo o levantamento, a participação destinada à saúde praticamente não mudou desde o início da regulamentação. Entre fevereiro e dezembro de 2025, foram destinados R$ 48,9 milhões à área, correspondentes a 1,19% de R$ 4,10 bilhões.
No primeiro semestre de 2026, a fatia ficou em 1,18%, com R$ 27,8 milhões sobre R$ 2,36 bilhões na base de repartição. Considerando o período entre fevereiro de 2025 e junho de 2026, a arrecadação alcançou R$ 6,47 bilhões, dos quais R$ 76,6 milhões foram destinados à saúde, mantendo participação de 1,19%.
O VerificaBet destaca que a estabilidade decorre dos percentuais de rateio previstos para o setor, e não de uma alteração específica ocorrida no primeiro semestre de 2026.
As regras oficiais de destinação estão vinculadas à legislação das apostas de quota fixa. O Ministério da Fazenda também mantém uma página específica com a legislação e as normas aplicáveis ao segmento.
Seguridade social não é contabilizada diretamente como saúde
O relatório também examina os R$ 274,6 milhões classificados como seguridade social. Como a saúde integra a seguridade social, o documento considera a possibilidade de esse montante ser interpretado como recurso destinado à área.
Segundo os dados analisados pelo VerificaBet, entretanto, essa linha aparece no Tesouro Gerencial como recurso livre da seguridade social, vinculada ao Ministério da Fazenda e à Receita do Tesouro da União. Dessa forma, o levantamento considera que ela não chega diretamente ao Ministério da Saúde.
A única linha identificada como destinada diretamente ao Fundo Nacional de Saúde é a de R$ 27,8 milhões. Mesmo que os valores da seguridade social e da saúde fossem somados, o resultado seria 12,8% do total analisado, ainda abaixo dos montantes destinados ao turismo e ao caixa livre da União.
O relatório também observa que a prestação de contas pública possui uma seção dedicada ao jogo responsável e descreve um grupo de trabalho voltado à prevenção e redução de danos, formado por representantes da Fazenda, Saúde e Esporte.
Relatório aponta R$ 514,1 milhões em recursos livres
Outro ponto destacado pelo estudo é a existência de uma linha de R$ 514,1 milhões classificada como recursos livres da União, relacionada à desvinculação de receitas. Desde o início do regime regulatório, o valor acumulado nessa rubrica chega a R$ 1,39 bilhão.
O relatório ressalta que a desvinculação de receitas é um mecanismo constitucional e legítimo. A questão apresentada pelo levantamento é a diferença entre essa classificação no Tesouro Gerencial e a forma como a prestação de contas pública apresenta a distribuição dos recursos.
Na prestação pública, nove destinos aparecem como integrantes da destinação legal e somam 100%. Já o extrato do Tesouro Gerencial apresenta uma décima linha correspondente aos recursos livres da União. O VerificaBet registra essa diferença entre os documentos oficiais sem classificá-la como irregularidade.
Rateio teve mudança em maio de 2026
O levantamento identifica ainda uma alteração na distribuição dos recursos a partir de maio. O fundo da Polícia Federal passou de 0,46% da cesta entre janeiro e abril para 7,33% em maio e junho, aumento equivalente a 15,8 vezes.
| Destino | Jan–abr/26 | Mai–jun/26 | Variação |
|---|---|---|---|
| Funapol — Polícia Federal | 0,46% | 7,33% | 15,8× |
| Caixa livre da União (DRU) | 24,83% | 25,14% | 1,01× |
| SISFRON — Exército | 0,93% | 0,83% | 0,89× |
| Secretarias estaduais de esporte | 0,93% | 0,83% | 0,89× |
| FNDE / PDDE | 6,03% | 5,39% | 0,89× |
| MEC — escola técnica | 3,25% | 2,90% | 0,89× |
Em valores, o fundo da Polícia Federal passou de aproximadamente R$ 1,5 milhão por mês para R$ 59,1 milhões no semestre. Em todo o ano de 2025, a mesma rubrica havia recebido R$ 16,5 milhões.
O VerificaBet afirma que, durante o primeiro trimestre de 2026, a prestação de contas pública e o extrato do Tesouro coincidiam nessa rubrica. A divergência teria começado em maio, sem que os documentos oficiais obtidos na apuração apresentassem uma explicação para a alteração.
Metodologia utiliza dados oficiais
A fonte primária do relatório foi uma resposta a pedido de acesso à informação de protocolo 18800.116741/2026-07, encaminhado ao Ministério da Fazenda com fundamento na Lei nº 12.527/2011. Segundo o VerificaBet, a decisão de acesso foi concedida em 30 de julho de 2026 e a resposta envolveu a Secretaria de Prêmios e Apostas e a Secretaria Especial da Receita Federal do Brasil.
Para calcular o total do semestre, o levantamento utilizou a série de arrecadação líquida das loterias de quota fixa por mês de apropriação, fornecida pela Receita Federal. Para a repartição, foi utilizado o extrato do Tesouro Gerencial por natureza de receita, órgão, unidade orçamentária e fonte de recursos.
Os dados de 2026 foram extraídos em 3 de julho, enquanto a base de 2025 foi extraída em 12 de junho. O levantamento também comparou os dados com o Panorama Periódico do Mercado Regulado de Apostas de Quota Fixa referente ao primeiro trimestre de 2026.
O próprio relatório ressalta que a base de repartição ainda tinha junho incompleto. Por isso, o total de R$ 2,48 bilhões da Receita Federal e os R$ 2,36 bilhões utilizados para a repartição não devem ser somados.
O marco regulatório das apostas estabelece as regras que estruturam a operação e as destinações financeiras do mercado brasileiro. A regulamentação federal também prevê mecanismos de monitoramento e fiscalização por meio do Sistema de Gestão de Apostas (SIGAP).
Dados não medem execução nem suficiência dos recursos
O VerificaBet destaca que os números não permitem concluir se os recursos destinados à saúde são suficientes para atender à demanda relacionada aos impactos dos jogos. Para essa avaliação, seriam necessários dados de custo, cobertura e prevalência, que não fazem parte da base analisada.
O levantamento também não mede a execução orçamentária. O extrato utilizado mostra os valores arrecadados e sua vinculação a órgãos e fontes de recursos, mas não indica se os montantes foram empenhados, pagos ou efetivamente aplicados.
Além disso, o relatório não acusa órgãos públicos de irregularidade. As divergências apontadas são apresentadas como diferenças entre documentos oficiais e questões que permanecem em aberto. A análise também reconhece que a desvinculação de receitas é constitucional.
O estudo, portanto, concentra-se na comparação entre a arrecadação das apostas de quota fixa e a forma como os recursos aparecem distribuídos nas bases públicas consultadas. O principal destaque é a proporção destinada à saúde, que permaneceu próxima de 1,2% desde o início do regime regulatório.
Fonte: iGaming Brazil | Autor: Luiz Vinicius

