O Brasil registrou 363 afastamentos de trabalhadores relacionados à ludopatia em 2025, com concessão de auxílio por incapacidade temporária do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). O número representa alta de 167% em relação aos 136 registros de 2024, segundo levantamento da Subsecretaria de Estatísticas e Estudos do Trabalho, do Ministério do Trabalho, divulgado pela Focus Gaming News com base em informações publicadas inicialmente pela Folha de S.Paulo.
Os dados, porém, não representam o total de brasileiros afetados por problemas relacionados ao jogo. O levantamento considera trabalhadores formais que receberam o benefício previdenciário, deixando de fora pessoas sem vínculo formal e outros casos que não resultaram em concessão do auxílio. A subsecretária Paula Montagner reconhece que a falta de informações dificulta estimar o impacto da ludopatia sobre afastamentos e demissões.
Afastamentos por ludopatia cresceram entre 2023 e 2025
Os registros oficiais indicam aumento nos afastamentos relacionados à ludopatia ao longo do período analisado. Em 2023, foram contabilizados 67 casos. No ano seguinte, o total passou para 136 e chegou a 363 em 2025.
| Ano | Afastamentos registrados | Variação anual |
|---|---|---|
| 2023 | 67 | Não informada |
| 2024 | 136 | Não informada no levantamento fornecido |
| 2025 | 363 | Alta de 167% sobre 2024 |
O crescimento mostra que aumentou o número de afastamentos registrados nessa categoria, mas não permite concluir, isoladamente, que a prevalência da ludopatia na população tenha avançado na mesma proporção. Mudanças na identificação dos casos, no acesso ao atendimento ou na concessão de benefícios também podem influenciar os registros.
O indicador deve, portanto, ser interpretado como uma medida dos afastamentos identificados pelo sistema previdenciário, e não como uma estimativa do número total de pessoas com transtorno do jogo no país.
Dados do INSS não abrangem todos os trabalhadores afetados
O levantamento considera pessoas que tinham vínculo formal de trabalho e receberam auxílio por incapacidade temporária do INSS. Essa delimitação deixa lacunas importantes para avaliar as consequências da ludopatia sobre o mercado de trabalho brasileiro.
Trabalhadores informais, desempregados e pessoas que enfrentam dificuldades relacionadas ao jogo sem solicitar ou obter o benefício não estão necessariamente representados nos números divulgados. Além disso, o total de afastamentos não permite medir diretamente quantas demissões ocorreram por causa do problema.
Paula Montagner, subsecretária de Estatísticas e Estudos do Trabalho, afirmou que a insuficiência de dados dificulta calcular a dimensão real dos afastamentos e das demissões associados à ludopatia. A ausência de uma série mais abrangente limita a avaliação dos efeitos sociais e econômicos relacionados ao transtorno.
Para aprimorar esse diagnóstico, seria necessário combinar informações de diferentes bases, respeitando a privacidade dos indivíduos e os critérios legais de acesso aos dados. Também seria importante distinguir afastamentos médicos, desligamentos profissionais e casos identificados por serviços de saúde.
Mais de 25 milhões de CPFs apostaram em quota fixa em 2025
Os dados do mercado ajudam a dimensionar o alcance das apostas, mas precisam ser comparados com cautela aos registros previdenciários. Segundo o Panorama Periódico do Mercado Regulamentado da Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA), vinculada ao Ministério da Fazenda, 25.245.319 CPFs únicos realizaram apostas de quota fixa no Brasil em 2025.
O levantamento também apontou 87.671.439 contas ativas em operadores e 100.775.427 contas ativas nas marcas de apostas. Esses totais são diferentes do número de CPFs porque uma mesma pessoa pode manter cadastros em mais de uma empresa ou marca.
A reportagem original calcula que os 363 afastamentos correspondem a aproximadamente 0,0014% dos CPFs únicos que apostaram em 2025. Embora o cálculo aritmético seja compatível com os números apresentados, essa proporção não representa a prevalência da ludopatia entre apostadores: o numerador contabiliza afastamentos com benefício previdenciário, enquanto o denominador reúne todas as pessoas identificadas como apostadoras, independentemente de terem ou não problemas relacionados ao jogo.
Por isso, o percentual não deve ser interpretado como uma medida do risco individual de desenvolver ludopatia. Para estimar esse risco, seriam necessários dados específicos sobre a condição de saúde dos apostadores e critérios comparáveis de acompanhamento.
MP nº 1.394/2026 e os desafios de monitoramento
O debate ganhou uma nova dimensão após a publicação da Medida Provisória nº 1.394, em 25 de setembro de 2026. Conforme informações do Ministério da Fazenda, a medida proibiu em território nacional a exploração, a oferta, a intermediação e a publicidade de loterias de apostas de quota fixa, abrangendo apostas esportivas e jogos on-line.
A medida também estabeleceu procedimentos para o encerramento das operações e a devolução de valores mantidos nas plataformas. A existência da norma, contudo, não fornece por si só evidências sobre seus efeitos nos indicadores de saúde, no emprego ou no comportamento dos apostadores.
De acordo com a reportagem da Focus Gaming News, ainda não há dados suficientes para medir o efeito da medida sobre os casos de ludopatia. A publicação cita uma estimativa da Associação Nacional de Jogos e Loterias (ANJL), segundo a qual mais de 30 mil sites irregulares continuariam acessíveis no Brasil após a publicação da MP. Esse número é uma estimativa atribuída à entidade, não uma contagem oficial confirmada no material consultado.
A permanência de ofertas irregulares, se confirmada, representa um desafio para o monitoramento do mercado e para a avaliação das políticas públicas. No entanto, não é possível concluir com os dados disponíveis se a mudança regulatória aumentará ou reduzirá os casos de ludopatia ou os afastamentos profissionais.
Jogo responsável exige indicadores mais abrangentes
Os números divulgados reforçam a importância de ampliar a capacidade de monitoramento dos danos associados ao jogo. Para compreender a relação entre apostas, saúde e trabalho, seria necessário acompanhar não apenas os benefícios previdenciários, mas também informações de saúde, procura por tratamento, afastamentos sem benefício e desligamentos profissionais.
O debate sobre jogo responsável envolve medidas de prevenção, orientação aos usuários, identificação de comportamentos de risco e acesso a apoio especializado. A análise das políticas públicas também depende de indicadores que permitam comparar períodos distintos e identificar mudanças sem confundir correlação com causalidade.
Para acompanhar a evolução das regras e das iniciativas governamentais, o leitor pode consultar a seção de legislação do Conexão Bet. A avaliação dos impactos da MP nº 1.394/2026 dependerá da disponibilidade de dados consistentes e de estudos capazes de separar os efeitos da medida de outros fatores sociais e econômicos.
Por enquanto, o dado central permanece delimitado: 363 afastamentos com auxílio do INSS foram registrados em 2025, ante 136 em 2024 e 67 em 2023. O número evidencia a evolução dos registros, mas não permite estabelecer quantas pessoas são afetadas pela ludopatia no Brasil nem medir, isoladamente, o efeito das mudanças regulatórias.
Fonte: Focus Gaming News | Autor: ricardoy

